(FreePik) Lidar com o mundo hoje em dia não é tarefa fácil. Os que desembarcaram nele há pouco talvez não consigam vislumbrar o desafio do qual quero tratar. Mas nós, os que vieram de muitas décadas atrás, nos sentimos boa parte do tempo como um sistema desses de computador precisando atualização. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nos divertimos em outros tempos com coisas que passaram a ser inconcebíveis, para falar a verdade inaceitáveis. Sem a devida atenção, podemos a qualquer instante proferir palavras que já não se deve usar mais e que, a depender do contexto, podem gerar tremendos mal-entendidos ou cancelamentos. Ainda que, para entender por completo esse último termo, talvez eu precise esperar a próxima atualização. E não adianta tentar pedir que não se zanguem, que sejam compreensivos, por mais que no fundo não passemos de inocentes. De bem intencionados desatualizados. Mas o mundo, como sabemos, faz questão sempre da atualização mais recente. E na esteira louca desses avanços todos, dessas transformações, surgiram termos novos como o do relacionamento tóxico, que acredito que vocês já devem ter ouvido por aí. Mas talvez proferido, não. Creio que isso depende muito da idade do seu sistema. Mas vejam vocês, essa definição notadamente recente me veio quando a televisão mostrava pela enésima vez aquele lance da expulsão do Hulk na partida contra o Palmeiras. E veio para dar enorme contribuição para que eu passasse a entender melhor o que acontece com o nosso futebol. Aquela cena me deu um estalo. Deixou tudo claro. Parte esmagadora dos nossos boleiros anda tendo uma relação tóxica com o jogo. Com os árbitros então, nem se fala. E tenham a liberdade de me dizer se posso estar sendo vítima de uma atualização mal feita, que esteja me impedido de compreender o termo em toda a sua inteireza. Enviem, em último caso, uma carta para o jornal. Não. Carta não. Olha aí, essa atualização não pode ter sido feita de modo adequado. Ninguém mais fala em carta. Outro dia mesmo, ouvindo uma conversa pelo rádio, constatei que existe aí já uma geração que nunca escreveu cartas. Professor Pasquale é testemunha. E pior, nunca viveu a ansiedade de esperar a chegada de uma. Enfim, com os recursos de que disponho sou levado a crer que relacionamento tóxico é aquele que maltrata, que agride, que abusa, que quer tirar proveito do outro. Começo a ter certo receio das conclusões a que vou chegando ao tecer estas linhas. Os que chegaram ao mundo há mais tempo dirão, como eu, que o futebol sempre foi um meio muito eficaz de revelar o homem. E ele aí está. E se tem uma coisa que sempre resistiu a atualizações foi o futebol. Interessante notar também que todas as tentativas de atualizá-lo parecem ter fracassado. Mas não coloquemos apenas sobre os ombros dos jogadores esse peso. Basta ver o que anda se dando no entorno dos estádios para chegarmos à conclusão de que a torcida ou parte dela tem tido também uma relação totalmente tóxica com o futebol. São muitas as vítimas desse relacionamento. Talvez uma atualização que trocasse o fanatismo pela paixão azeitasse a máquina a fazendo trabalhar melhor. E mais não digo com receio de que a minha cuca acabe dando um bug. Mas aí está outro termo que será mais íntimo dos que desembarcaram nesse mundão recentemente. E que faz com que eu me sinta como se estivesse me apropriando do que não me pertence. O que a essa altura passou a ser do jogo.