(Flickr/Ceará) O tempo muda tudo meus amigos. Este jornal que lhe chega às mãos não deixa de ser também prova disso. Novo formato. Outra diagramação. Outro jeitão. Pode até ter passado a lhe chegar de outra forma, digital. Sem aquele entregador apressado de manhãzinha o atirando pra dentro da sua casa ou o deixando na portaria. Outra coisa que tenho a impressão de ter mudado muito é a condição de treinador da seleção. A tal turma do amendoim sempre existiu. Ainda que chamada por outro nome. Os resultados, ou a falta deles, mais do que arranhar profundamente nosso orgulho, dissolveram a aura de respeito que em outros tempos banhava o cargo. Mesmo para aqueles que chegaram lá flertando com certa unanimidade. Como arrisco dizer que foi o caso de Tite. E isso é tão flagrante que me fez escrever aqui outro dia que a seleção tem tido o nefasto poder de diminuir treinadores. Imagino que mesmo o título que escolhi cause espanto, tão raro se tornou levantar a bola do técnico do escrete nacional. Eles chegam lá grandes e ao sair parecem despidos dessa grandeza. E a gravidade dessa situação se torna explícita quando passo a não conseguir imaginar um único treinador brasileiro realmente preparado para encarar essa dividida. E, vejam, isso pode não ser prova de limitação por parte deles. É resultado de tudo o que o nosso futebol anda vivendo. Como é fato que o desembarque em massa de treinadores estrangeiros no futebol brasileiro reduziu drasticamente o espaço dos nossos. E foi ao falar sobre a abertura aos estrangeiros que, na minha opinião, o atual técnico da seleção brasileira, Dorival Júnior, fez uma afirmação louvável. Semana passada, em um evento que reúne dirigentes, treinadores e profissionais que atuam na área, ele disse em alto e bom som que iremos pagar um preço alto pelo modo como o futebol brasileiro vem tratando o limite de jogadores estrangeiros em cada clube. Número que no início deste ano subiu de sete para nove. Citou um levantamento interno feito pela comissão técnica dele que apontou que, entre os 20 clubes da Série A, 12 tinham centroavantes estrangeiros. Coincidentemente, a posição que tinha citado aqui ao escrever um artigo sobre o tema semanas atrás. Apuração fácil. E o ritmo em que essa abertura se deu ao longo do tempo só se acelerou. Entre 2019 e este ano as contratações de jogadores pelos clubes da Série A cresceram 150%. Dorival usou como exemplo do perigo que nos ronda a Itália. O país de Roberto Baggio permitiu que 11 jogadores da comunidade europeia pudessem transitar nos clubes. E o que se viu foram clubes italianos em campo sem um único jogador formado por lá. O que, segundo Dorival, pode explicar o fato de a Itália ter ficado fora de duas Copas do Mundo. Sou do tempo em que a Itália, em matéria de futebol, queria ser Brasil. E não o Brasil virar Itália. Como disse no início, o tempo muda tudo meus amigos.