(Reprodução/Memória Santista) Revendo e ouvindo gravações antigas, uma melodia ao som de uma contralto de voz possante, que alcançava com perfeição as notas mais agudas de um fox dos anos cinquenta, inquietou-me. Fiquei prestando atenção à interpretação e, distinguia, com perfeição, o inglês bem pronunciado. Fiquei curioso. Sabia que a canção chamava-se Jezebel e a voz era de Leny Eversong. Pesquisei e descobri que esse sucesso de mais de 60 anos foi uma das marcas dessa grande intérprete, de carreira internacional, que cantou em diversos países, arrebatando público imenso, uma grande estrela da música. Para o meu espanto, descobri também que Leny era brasileira, nascida em Santos no dia 1º de setembro de 1920, batizada como Hilda Campos Soares da Silva. Soube que ela passara por duas emissoras de rádio locais, a Rádio Clube e, mais tarde, a Rádio Atlântica. Depois, ela foi residir em São Paulo e, nas décadas de 1930 e 1940, se tornou crooner em boates e cassinos. Nos anos 1950, fez sucesso internacional, sempre cantando em inglês e em outros idiomas, apresentando-se em palcos do Brasil, da Argentina, dos Estados Unidos, da França e de outros países, na América e na Europa. Ouvi dizer que ela fez mais sucesso fora do Brasil que no seu próprio país. Era idolatrada em todos os lugares por onde se apresentava. Foi capa das principais revistas brasileiras de sua época, no auge da sua carreira, ostentando uma agenda internacional invejável. Gravou em grandes estúdios norte-americanos e europeus, acompanhada de grandes orquestras. Era tratada como uma diva da canção, comparada às grandes intérpretes internacionais. Todos a elogiavam pelo imenso talento e pela sua incrível simplicidade, qualidades que a fizeram conquistar incontáveis fãs em diversos países. As canções que gravou fizeram estrondoso sucesso. Até o final dos anos 1960 a sua carreira ia bem e, nessa época, participou da montagem brasileira da Ópera dos Três Vinténs, de Brecht, além de programas e festivais da canção, continuando, sempre, com suas apresentações na América do Norte. No início dos anos 1970, porém, um fato mudou a vida da cantora: seu marido desapareceu, vítima de um suposto sequestro e nunca mais se teve notícia dele. Esse fato foi o divisor de águas dessa excepcional intérprete. Triste e desiludida, aos poucos foi abandonando a carreira. Mesmo amparada por amigos, passou a se apresentar com bem menos frequência e, poucos anos depois, preferiu parar de cantar em definitivo. Adoeceu e, em 29 de abril de 1984, morreu, com 64 anos, vítima de diabetes. Hoje, num universo musical discutível, recheado por intérpretes de pouco talento, fica difícil lembrar de artistas do quilate de Leny Eversong pois, para se cantar, de fato, era necessário ter boa voz e saber bem interpretar belas canções, produzidas por profissionais de qualidade artística idêntica às dos seus intérpretes. E Santos, berço de incontáveis personagens que marcaram a vida do País, quase não lembra de Leny Eversong. Restaram poucas recordações. Deixo aqui meu preito de admiração e eterno respeito a essa admirável intérprete da música brasileira e internacional de todos os tempos.