Unidade de saúde lotada em Guarujá: situação preocupante (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Há muitos anos vivenciei um mandato eletivo. As razões da saúde me levaram a isso, pois sempre precisamos da intervenção de um político para as causas necessárias, e naquele momento, pensei: por que não eu? Um dos episódios que corroborou para a decisão de então foi o do MSC Armonia (assim mesmo, sem a letra H) que acompanhei como médico infectologista. Era véspera de um Carnaval, havia um surto de doença respiratória na embarcação, milhares de passageiros e centenas de tripulantes a bordo, e outros tantos para embarcar. Além de cuidar dos casos, tentei notificar as autoridades sanitárias de então. E saber quais medidas recomendavam. E foi uma novela. Em todos os níveis da gestão, tudo desconectado, ausência de ações coordenadas, enquanto pessoas seguiam expostas ou a se expor ao desconhecido. Enfim, depois de muito tentar, consegui contato com o então ministro da saúde, Alexandre Padilha, meu ex-residente no HC, em São Paulo. Com a sua intervenção, amostras coletadas por mim (e paradas no IAL de Santos) enfim subiram para São Paulo e foram analisadas. Na segunda-feira de Carnaval, saiu o resultado: influenza B. Um mal menor, porém, nessa altura, já havia ocorrido o desembarque dos expostos e o embarque dos a se expor, sem que nada se soubesse. Como vereador, meu primeiro projeto de lei contemplava um plano de resposta a catástrofes de toda ordem, inclusive sanitárias. Foi solenemente ignorado. Mas está lá, nas atas da Câmara de Santos, e levou o nome da tripulante santista vitimada naquela ocorrência. E também reuni autoridades sanitárias portuárias, armadores e a Anvisa para reestabelecer protocolos sanitários abandonados, que uma vez retomados, tiraram os cruzeiros das manchetes. Conto isso porque 13 anos depois a notícia da temporada é o surto de “virose” na região da Baixada Santista. E, com algum constrangimento, ficou nítido o vácuo e o despreparo de nossas autoridades, novamente de forma ecumênica e em todos os níveis. Milhares de pessoas acometidas, pelo menos dois casos associados com alguma gravidade e ainda usamos o termo genérico ‘virose’, quando há tecnologia que em minutos, isso mesmo, minutos, consegue fazer o diagnóstico de um painel de patógenos gastrointestinais que poderiam causar esse surto e direcionar melhor as ações. Demoraram muitos dias para uma reunião regional com o Estado que, pelo ventilado na imprensa, discutiu o óbvio e platitudes como “não digam virose, digam gastroenterocolite...”. Peço desculpas pela crítica pública, mas é inaceitável que nossa região siga tão atrasada, desorganizada e, até, abandonada em pleno 2025! Convido os recém-empossados prefeitos e secretários, assim como os governos estadual e federal a uma reflexão porque, desculpem, para além de grave, o que tem ocorrido em nossa região é até patético. Mas não tem graça, tem consequências na saúde e no turismo, que não podemos permitir. Evaldo Stanislau Affonso de Araújo é médico infectologista e professor universitário.