(FreePik) Decidi fundar uma igreja. Ainda não escolhi o nome, mas suas metas estão bem traçadas. Serei bispo, ou melhor, apóstolo – acho mais pomposo. Meu complexo religioso terá potencial para ser o maior em número de igrejas em todo o mundo – e não é coisa de megalomaníaco. Como na canção A Casa, do poeta Vinícius de Moraes, minha igreja não terá teto, não terá nada. Sua expansão, a depender da colaboração dos fiéis, poderá ser vertiginosa. Não me preocuparei com orçamento para construção, ampliação ou manutenção de templos. Haverá tempo suficiente para se tratar daquela pauta que vem se tornando secundária em algumas casas religiosas: o crescimento espiritual. Aos que seguirem a palavra, não prometo fama (esqueça o aumento do número de seguidores nas redes sociais) nem riqueza (não espere a mansão, a Ferrari e o jatinho como forma de retribuição por seu empenho). É provável que, logo em minha primeira pregação, alguns se desanimem ao descobrir que não tenho o condão de transformar a vida espiritual de ninguém. Esse é um atributo exclusivamente divino. E o caminho para a transformação, solitário (desculpem-me pela quase heresia, grande gafe para quem pretende ser um renomado religioso). Retifico: podemos percorrê-lo na companhia de Deus. É opcional. Na qualidade de apóstolo autoproclamado, posso afirmar que somos testados, invariavelmente, em nossas deficiências. Sou impaciente (algo que já revelei em outras crônicas). Então, não por acaso, vejo-me constantemente testado nesse quesito (é prudente que eu não revele minhas outras deficiências). Voltemos à igreja que projetei. É possível transportá-la para o lugar que quisermos e acessarmos suas dependências a qualquer momento. Pequena no tamanho, mas grande nas pretensões, cabe dentro do peito. Uma vez em suas instalações, pode-se sentir paz e conversar com Deus, sem custo algum. Em algumas situações – nas quais não estamos espiritualmente amadurecidos para lidar com nosso íntimo sem maquiagem –, o autoengano é tolerável em nossa argumentação com Deus. Mas há uma regra rígida, inflexível: não é possível enganá-Lo, nem que nos esforcemos. Nem adianta tentar. Não se deve buscar convencê-Lo do quão bons nós somos. Mesmo nos casos de autoengano sincero, Ele nos conhece, pois nos criou, lembra? Deus sempre dirá (ao menos, sempre me diz): “Hey, não estou interessado em seu blá-blá-blá. Mostre-me o que tem feito”. Às vezes, tenho o que mostrar. Outras tantas, não. Minha igreja não possui peninhas de anjos ou qualquer outro amuleto ungido para venda aos fiéis. A quem interessar, peninhas angelicais, generosamente deixadas pelos assistentes de Deus em algumas igrejas, podem ser compradas na internet. É real, embora pareça piada. Uma espécie de indulgência contemporânea. O caminho para o crescimento espiritual não tem atalhos, é lento, com tropeços, mas é nossa inclinação percorrê-lo. Então, convido o caro leitor a participar de minha igreja. Sua revolucionária arquitetura sem paredes facilita a presença do Criador. Nela, é curioso como, quanto mais agradecemos a Deus, menos precisamos Lhe pedir. Basta ter fé. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel PM, advogado e escritor.