Chegados aos 90 anos, o Canadá merece honras da municipalidade, do Estado que o administra, das casas legislativas, mas especialmente dos corpos discentes que tiveram nele sua primeira cátedra (Vanessa Rodrigues/ AT) Vem de longe a ideia de que os nomes determinam simbolicamente muito o destino do que ou de quem alcunham. Pelo menos magicamente existe uma simbiose entre denominação e futuro percurso. Ali no coração do Boqueirão um terreno da Companhia City, de capital anglo-canadense, deu lugar à construção de um colégio público que guardou de suas origens os conceitos de excelência e virtudes típicas da grande empresa, e de suas matrizes imperiais. A City era sinônimo de precisão e competência impressas em tudo que punha as mãos. Assim, o Colégio Canadá até os anos 70, era quintessência de ensino de ponta, seu corpo docente de nível universitário, muitos dos professores, eles mesmos eruditos entregues à pedagogia, feito mentores para toda vida. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Sem militarização vivenciávamos disciplina com alegria sincera, empatia verdadeira entre mestres e alunos. Havia uma biblioteca farta que me revelou o que seria escritor. Uma quadra onde vicejaram atletas de renome, um teatro! Na verdade, naquele anfiteatro protegido por delicados vitrais surgiram astros de primeira ordem da dramaturgia brasileira. Festivais de música, corais, bandas, a educação nesse Canadá tropical já era casada por amor à cultura. Ali durante mais de uma década surgiram personagens determinantes para minha psicologia a dar-me força para enfrentar o mundo fora dos seus muros generosos. O professor João Itagiba, parecendo saído de séries britânicas a nos motivar ao pensamento livre e ousadia no comportamento. Maria Helena Caruso, que nos dizia que a ditadura ia passar e nunca poderia ser repetida. A Ada, um dos meus tipos inesquecíveis pela originalidade “felliniana”! Sílvio Andraus, expert nacional em matemática que fez-me até render-me à aritmética pela maestria do método. E o campeão Negrelli, que sentiu no poeta nascente um inabilitado para os esportes por dedicação ao intelecto. O Canadá é uma mítica sobreposta de existências iluminadas pela fraternidade em torno do estudo. Ser “canadense” a partir de Santos para o mundo nos fez compor uma verdadeira confraria ampliada de reconhecimento mútuo. Moldamos como um caráter típico de liberdade com responsabilidade extraído do solo sagrado da Rua Mato Grosso! Chegados aos 90 anos, o Canadá merece honras da municipalidade, do Estado que o administra, das casas legislativas, mas especialmente dos corpos discentes que tiveram nele sua primeira cátedra. Planejamos na Casa das Culturas de Santos junto com a Fundação Arquivo Memória uma exposição, exultei saber um hino ao colégio pelo compositor mor santense Ricardo Perez, sucesso com centenas de letras, e um almoço em agosto. Bom lembrar que só iniciam-se em 2024 as festividades e maior glória não há que ver do Canadá sua arquitetura art-deco lindíssima restaurada e seu prédio recebendo ex-alunos até os nonagenários, ainda resistindo por força do encanto haurido na aurora de suas trajetórias. A história do ensino paulista tem no colégio um dos seus alicerces, seu resgate é necessário até para exemplificar o que foi a educação pública num passado que o Brasil precisa reviver, sob pena de não sair do voo de galinha diante dos desafios tecnológicos que se apresentam . Salve! Salve Canadá “alma mater” de nossos horizontes!