(Arquivo Pessoal/ Instagram) Ela conquistou o Brasil radicalizando no esporte, no empenho para com a vida e conquistou medalha olímpica sendo ainda uma encantadora garota. Mas Rayssa sabe ou pressente a fugacidade desse impostor chamado sucesso! Busca valores permanentes e se revela uma apaixonada pela leitura. Já descobrindo os clássicos juvenis, tenta inocular no irmão caçula o interesse pelos livros. Inevitável, começou lendo O Pequeno Príncipe: pouco importa o caminho, desde que a porta nada estreita do conhecimento se amplie. Saint-Exupéry, que pousou mais de uma vez sobre a então bucólica Praia Grande, é dos mais honrosos convites a outras obras de sensibilidade ímpar. Ler em si já é um ato de extrema liberdade, de domínio intransferível do sujeito soberano, uma prática só igualável ao pensamento, e ler é pensar ao cubo. Se os riscos do humano são um desafio, o primeiro é empobrecimento da linguagem que nos compõem assim, humanos. Se a literatura desaparecer, com ela de roldão irão nossa necessidade congênita de fabulação, de relato, de encanto, e por fim, de seres comunicantes. Desconfio até que pensar corre risco. Devanear ‘aqui com meus botões’ tem sido uma excentricidade em extinção. Para um escritor, o movimento entre o teclado e sua janela é um ‘modus operandi’ de criação. Entre o mar aberto e o porto não canso de reinventar horizontes. Não importa tua paisagem, teu olhar que pede sempre ser renovado. Voltando à literatura, outra mansarda de muitas janelas, descobri uma obra-prima de comovente defesa da leitura. Escrever É Muito Perigoso, livro da Prêmio Nobel polonesa Olga Tokarczuk (o polonês é um labirinto de consoantes). Nele, ela nos diz: “Entre todas as espécies, apenas o ser humano adquiriu a misteriosa capacidade de ler, ou seja, abandonar a realidade que lhe foi dada, embora só mental e temporariamente. A cada vez que abrimos um livro, entre o olho e a superfície do papel, acontece um milagre...” Se não dormimos, sucumbimos fisicamente, então o que sucederá ao espírito quando a imaginação se tornar um luxo, até o limite de nenhum esforço cognitivo exercido e compartilhado? O primeiro Kafka ninguém esquece e foi A Metamorfose, o amor adulto inaugural entre repulsa, estranhamento e sucumbir ao seu encanto. Diante de tanta idiotização e esterilidade dos sentidos num mundo ‘coisificado’, por vezes sinto-me eu mesmo Gregor Samsa, o inseto aberração que ainda lê, sente, conta, necessita de arte, muita arte. Mas com a menina Rayssa refaço minha crença numa geração interessada em algo além de ‘prosperidade e consumo’. É isso que nos cabe defender, apesar da inteligência artificial, apesar do excesso de estímulos audiovisuais, apesar dos execráveis aplicativos de apostas. Se descrermos de um futuro com leitores, com estórias, contadores, aí, sim, estaremos condenados ao ocaso como centelhas cósmicas. Como pensa o mestre maior Chomsky, se delegarmos à maquina, se atribuírmos ao computador nossa prerrogativa de pensar, o que nos restara de singular neste planeta? Como dizia Clarice, lutamos sempre “apesar de...” *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das academias de letras de Santos e Praia Grande e Curador da Casa das Culturas de Santos