(FreePik) O esquecimento de um artista pode ser temporário e talvez possa ser interrompido com pequenos gestos, assim é o anjo da história. Atualmente pouquíssimo lembrado, no passado Mário Gruber (1927-2011) foi reconhecido, à guisa do grande intelectual brasileiro Antonio Candido, casado com a filósofa Gilda de Melo e Souza e prima de Gruber, que escreveu na apresentação do catálogo de sua exposição individual em 1967 da Galeria Atrium: “o artista atingiu uma fase madura dessa tensão polar (...) em que a realidade é sonho e o sonho é realidade”. Na juventude em Santos, inquieto, perambulava nas docas durante as madrugadas e se encantava com as luzes barrocas, onde o mundo-mar atlântico do porto já pululava em sua imaginação. Diz ter frequentado a Chácara Sapucaia ainda criança junto aos seus avós, no mesmo lugar onde Mário de Andrade teria escrito o grande romance brasileiro Macunaíma (1928). Participou da famosa exposição 19 Pintores em 1947, julgada por Lasar Segall e Anita Malfatti, onde alcançou reconhecimento. Fugiu do litoral com 21 anos quando ganhou uma bolsa do governo francês para estudar gravura em Paris e lá se filiou ao Partido Comunista, quando voltou em 1951 para Santos, fundou o antigo Clube de Gravura e viu a disparidade com a esquerda brasileira, mais tarde rompendo com o PCB dominado pelo gueto do Jorge Amado. Morou na França, Itália, Pernambuco mas se fixou em São Paulo. A sua pintura variou do abstracionismo ao realismo fantástico, como os seus anjos negros sem asas e com clipes em suas costas. Foi numa outra direção da visualidade brasileira e já representava os Bate-bola carnavalescos, hoje tão conhecidos dos subúrbios cariocas. Palhaços, anjos, trolls, militares e crianças fantasiados sempre pousados para o diafragma de Gruber, entre luzes e sombras, cores e valores que a imaginação saltavam à cara do espectador. Foi ao Provocações em 2002 e durante a entrevista com o Abujamra provocou aqueles que rompem com a tradição: “o que antecede a técnica é um propósito misterioso e eu sou fascinado pela técnica”. Oriundo de uma família de pintores, Gruber tinha uma erudição e uma consciência política agudas. O esquecimento, porém, é seletivo e por isso o cânone é quem decide sobre o passado lembrado. Ontem, dia 28, fez treze anos da morte do pintor santista, Mario Gruber. Este texto pertence à série Margens cujos pequenos ensaios buscam resgatar o legado de grandes artistas do século 20 que nasceram na Baixada Santista e foram esquecidos. *Douglas Gadelha Sá. Professor de Filosofia, ensaísta e crítico cubatense