( Pixabay ) O Brasil enfrenta a pior epidemia de dengue da sua história. A taxa de mortalidade é mais alta em idosos, principalmente com comorbidades como diabetes e hipertensão. Até a semana 26 de 2024, foram confirmados 4.269 óbitos, com taxa de letalidade de 5,1%. Os extremos de idade estão relacionados à maior gravidade da doença e ao maior risco de ocorrência de óbitos, sendo que 56% das mortes apresentam até uma comorbidade. As mais prevalentes são a hipertensão arterial, com 46%, e o diabetes, 25%. Atualmente, uma das formas de prevenção é a vacina, já aprovada em 2022 pela União Europeia (indicada para indivíduos a partir de 4 anos, sem restrição máxima de idade). No Brasil, a vacina Qdenga (Takeda) foi incorporada no SUS em janeiro deste ano para distribuição apenas a pessoas de 10 a 14 anos (devido à capacidade limitada de produção da vacina), aos residentes em áreas endêmicas e com população superior ou igual a 100 mil habitantes. Esses critérios foram definidos pelo Ministério da Saúde por se tratar da faixa etária que concentra maior número de hospitalizações por dengue, depois dos idosos, grupo para o qual a vacina não foi liberada pela Anvisa. Como idosos são considerados grupo de risco aos agravos decorrentes do vírus da dengue, a expectativa é que em breve haja dados referentes a pessoas com 60 anos e mais que lhes permitam serem incluídas como elegíveis ao imunizante. Assim, no Brasil, o uso por idosos, caso recomendado por um médico, seria considerado o que chamamos de off label — prática de prescrever medicamento para uso diferente daquele indicado na bula, de maneira ainda não aprovada pelas autoridades sanitárias regulatórias. O jornal Folha de S.Paulo, por meio da Lei de Acesso à Informação, relatou que o presidente Lula tomou a vacina da dengue em clínica privada, quatro dias antes do início da campanha no SUS, certamente orientado por seus médicos, sendo seu uso off label, pois ele tem 78 anos. Vacinar sempre é o melhor panorama de prevenção à saúde para todos, independentemente da condição socioeconômica. O principio da equidade tem relação direta com os conceitos de igualdade e de justiça social. Acredito que os competentes comitês de vacinas deverão rediscutir a possibilidade do uso off label da vacina para os 60+ no Brasil. Com a baixa cobertura vacinal em algumas regiões dentro da faixa etária hoje preestabelecida — como a Baixada Santista, cuja cobertura vacinal de dengue está entre 8,06% e 64,7% entre as nove cidades, como mostrou A Tribuna em 8 de julho —, caberia aos comitês discutir a ampliação da vacinação da forma off label, prescrita pelos médicos que tratam de idosos com comorbidades graves (como diabetes e hipertensão) e que morem em regiões de alto risco, utilizando os centros de Referência de Imunobiológicos Especiais (Cries), com protocolos rígidos e sob acompanhamento. Aqueles idosos que estão fora dos possíveis critérios deveriam receber formas de prevenção como repelentes pelo SUS, principalmente à base de icaridina. *Marco Antônio Barbosa dos Reis. Médico infectologista, especialista em Administração Hospitalar e Sistemas da Saúde