(Unsplash) Trago uma premissa na qual defendo que a educação para o ser humano começa a partir da concepção e vai, via de regra, até em torno dos 12 anos. Estou me referindo ao conhecimento voltado aos valores morais, à prática do amor, do respeito, da solidariedade, ao bom uso dos direitos e seus respectivos deveres, enfim, a todos os atributos que cada pessoa pode desenvolver para bem trilhar os adequados caminhos da vida. É claro que tudo isso deve começar na família, a quem cabe (ou caberia) a tarefa de preparar a todos para o bem viver, conscientes do papel e da importância para o sensato desempenho de suas atribuições como cidadãos do mundo. Nos dias atuais, percebo que as famílias (nem todas, felizmente) omitem-se da prática do que chamamos “pátrio poder”, ou seja, as responsabilidades de que cada um pode exercer, saudavelmente, garantindo a sua individualidade rumo ao coletivo, nesse primordial grupo social. Tenho observado que as famílias preferem transferir a outrem as atribuições que, intrinsecamente são suas. Boas escolas, excelentes grupos sociais e esportivos, ótimas academias de artes e de esportes e tantos outros “equipamentos” jamais poderão dar a base necessária ao ser humano, uma vez que poderia ser mais bem oferecida pelas famílias. Noto que não são percebidas, mais claramente, a parceria, a cumplicidade e as manifestações de afeto, por exemplo, no ambiente familiar. Então, verificamos que viver de aparências tornou-se uma prática costumeira na sociedade. As pessoas agregam-se e descartam-se rapidamente dos ambientes que poderiam ser mais bem aproveitados se cada um pudesse fazer a sua parte, prestando mais atenção a si mesmo e aos que lá estão para o exercício da proveitosa convivência. O que vemos são pessoas simplesmente imitando umas as outras, pois, “se não seguirem a prática dos modismos, sentir-se-ão excluídas”. Os comportamentos revelam seres humanos individualistas, influenciados pelos meios eletrônicos, com milhões de “amigos” virtuais e com poucos ou quase nenhum, de fato, reais. Desaprendeu-se a boa prática do olhar nos olhos, do estender as mãos, do sorriso sincero, do carinho compartilhado e sem cobranças, enfim, de tudo que poderia fazer parte das boas relações e do companheirismo saudável. Bons observadores das práticas sociais revelam que as pessoas preferem (ou são levadas) a viver de aparências: ter a melhor roupa, o melhor carro, os melhores equipamentos de comunicação virtual e outros tantos “benefícios” que os fazem iguais por pura repetição de comportamentos. Aqueles que imaginam não ser iguais aos “empoderados” retrair-se-ão e poderão, ao se sentirem “à margem”, buscar o isolamento que os levarão às atitudes depressivas e, algumas vezes, até de autoviolência. As aparências enganam àqueles que vivem apenas das exterioridades? Certamente que não. Não dá para fazer papel de “antenados” ou de “donos do mundo” se dentro de cada um existem insatisfações, situações mal resolvidas, dissabores. Agradar ao mundo e não a si mesmo, representar situações ou se revestir de poderes passageiros pode “agradar” a outros, mas não a quem decidiu viver, apenas, de aparências. Afinal, as aparências fúteis machucam e enganam apenas aos que “escolhem” viver delas a vida toda. *Maurilio Tadeu de Campos. Professor, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras