(Divulgação) Quando havia apenas um aparelho de TV em casa, ele foi a tortura de minha infância e adolescência. Eu queria assistir a filmes e desenhos, mas certos horários das quintas-feiras, dos sábados e o domingo inteiro eram reservados por minha mãe para assistir a seus programas. Foi assim na Globo, na Tupi e na Record, quando não dispunha de rede própria, e depois na TVS, que virou SBT. E não era só na TV, pois minha mãe o acompanhava também na Rádio Nacional de São Paulo, em seu programa do meio-dia. Confesso que eu gostava do quadro Estórias que o Povo Conta, um radioteatro que ele narrava, e do programa de perguntas e respostas sobre conhecimentos gerais, que iniciava sua programação de domingo. Aos sábados, o Zé Corneteiro também trazia perguntas para o público responder, bem antes do “Quem quer dinheiro?” fazer parte dos bordões de Silvio. Alô, Leo! era a deixa para seu irmão entrar em cena, que também era dividida com Ademar Dutra, que apresentava alguns quadros. Foi num de seus concursos de calouros, na década de 1960, que o cantor Luiz Américo participou e venceu, com sua carreira decolando a partir daí. Demorei a reconhecer seus méritos como apresentador e empresário por causa da massificação e da imposição materna. E eu não estava sozinho, tanto que era comum, na época, sentenciarem que a vida social de um amigo acabava quando ele começava a assistir o Programa Silvio Santos na casa da namorada. Para agradar a sogras, valia tudo! Era um “rito de passagem”... Silvio Santos começou sua carreira midiática bem cedo, aos 14 anos, quando venceu um concurso de locução, na década de 1940. Em seguida, passou a atuar em eventos e circos. Empreendedor nato, essa experiência inicial o fez entender o potencial do entretenimento, o que não o impediu de atuar em outros negócios. Sua vida profissional nem sempre foi tranquila. No entanto, Silvio sempre demonstrou inequívoca resiliência e capacidade de superação de problemas e desafios ao longo de sua vida. Valorizar artistas de outras gerações, funcionários e colegas foi outra marca registrada. A participação de Aracy de Almeida como julgadora em seu Show de Calouros, a premiação do Troféu Imprensa e a parceria nem sempre bem compreendida com o grande Manuel de Nóbrega são exemplos. Ainda sobre Manuel de Nóbrega, resgatou a Praça da Alegria, transformada em A Praça É Nossa. Os malandros de plantão devem ter saudades do Cocktail, apresentado por Miele. Também ousou na teledramaturgia, com produções nacionais e importadas. Chaves e Chiquititas permanecem fenômenos midiáticos. Merece destaque especial a oportunidade que deu para Jô Soares realizar seu projeto de entrevistador. Silvio até pensou em entrar para a política, mas teve o bom senso — ou seria temor? — de abandonar esse projeto. O fato é que ele conseguiu respeito e admiração até de seus concorrentes. Também aprendi a entendê-lo como um visionário, com extraordinárias habilidades empresariais e interpessoais. Ele se junta a outros ícones do passado, como Haroldo Barbosa e Chacrinha. Não sei se os anjos gostam de programas de calouros, mas vão ter que se acostumar, porque “Silvio Santos vem aí!”. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras