(Divulgação) Cinquentões, como eu, não devem ser aficionados por super-heróis. Mas isso é apenas opinião, talvez manifestação ranzinza de quem acha que absolutamente tudo na vida deve ter seu momento. Na praia, também não uso boné com a aba virada para trás. E chega de check-list sobre o que cinquentões devem evitar, o assunto é outro. Mesmo não sendo aficionado pelo mundo dos quadrinhos, sei que Thanos utilizou a Manopla do Infinito para, com apenas um estalar de dedos, dizimar metade dos seres do universo. Ah, se eu fosse Thanos! Seria mais específico, ou melhor, mais certeiro, de acordo com os que se deixam levar pelo canto da sereia ou são simplesmente mal-intencionados: pulverizaria todos que, aqui, simbolizam o erro, o abuso, a ilegalidade. Faria desaparecer todos os integrantes das forças de segurança do País. Calma, caro leitor, posso explicar a brilhante proposta. Se fizesse desaparecer todos os criminosos, seus simpatizantes e a legislação permissiva que possuímos fariam brotar novos foras da lei em curtíssimo espaço de tempo. O problema da insegurança pública retornaria ao caótico status quo. Mas, se o estalo fizesse sumirem todos os policiais de Pindorama, ocorreria – de acordo com meu experimento hipotético – uma espécie de crepúsculo para nossa sociedade e, depois da fase de extremo sofrimento (sabemos que bandidos preocupados com o bem-estar da comunidade só existem nos cinemas), a aurora de dias melhores. Eclodiria a consciência da importância de forças policiais. Estado e sociedade passariam a tratar policial como policial e criminoso como criminoso. Os futuros policiais poderiam exercer suas atribuições sem condenações prévias. Em 1997, estava em férias em Recife durante a greve de policiais militares. O que vi? Uma cidade fantasma. Restaurantes e bares fechados. Eventos cancelados. Testemunhei mais do que o vazio das ruas, o medo que se instalou quando a força legal do Estado não se fez presente. Como alguém olhando para o céu com a clareza de observar o passado (afinal, não enxergamos as estrelas recém-nascidas e, enganosamente, continuamos enxergando aquelas que não mais existem), senti-me diante do tempo em que o Estado não existia, e o mais forte impunha sua vontade. Agora, aguardo o dia em que, não Thanos, mas, ironicamente, o crime organizado trará a consciência sobre a necessidade de uma polícia forte, obviamente com legislação que prestigie sua atividade. *Coronel da PM, advogado e escritor