[[legacy_image_285052]] Santos são muitas, plural até no nome. Permita-me, Clarice Lispector, Santos “é” muitas formas de ser, já que variadas são suas culturas. Bem merece uma casa para suas culturas: suas literaturas dos Andradas a Plínio Marcos, suas gastronomias, suas histórias de quilombos e a força das imigrações além-mar e migrações nordestinas. Na Alemanha, toda cidade média tem sua casa de cultura; nem precisa ir longe: em toda América Latina, povoados perpetuam suas lendas, oralidades, tradições autóctones num centro de convivência e perenidade de suas sagas. Soube pelo prefeito Rogério Santos, fomentador de nossas artes, da pérola reavivada na confluência das ruas Sete de Setembro e Constituição, ponto nevrálgico das várias Santos que se encontram. Solar que parece saído dos romances do Eça ou de alguma aventura colonial nos trópicos de Somerset Maugham; impossível deixar de encantar quem passa no desaviso a viajar no tempo heroico de nosso Porto e ocupação das praias em nossa Belle Époque. Ampla, azulejada, um pergaminho vivo guardando agora límpidas todas camadas sobrepostas da alma santense. Parece pronta para uma única finalidade que reúne todas! Cultura, arte, sociabilidade de uma população sequiosa de acesso à música, à dança, aos saraus, à poesia carregada de sol e maresia. Um diamante incrustado na intersecção do Paquetá/Vila Nova com passagem entre o Centro e a Vila Mathias, em breve cortados pelo VLT, parece pedir: me ocupem para o bem da história de nossa gente! Não mais um museu frio e equidistante, uma casa de culturas com acervo de nossos poetas, oficinas de nossos talentos para futuros talentos, espaço lúdico de contadores de estória (gérmen do interesse pela leitura) e abrigo ao jazz e chorinho da gema. Exemplos tenho à mão cheia: a Casa das Rosas na Paulista, Casa Guilherme de Almeida no bucólico Pacaembu e a Casa Mário de Andrade num cantinho da Barra Funda. Todas administradas em parceria do Estado com fundações literárias onde eu mesmo testemunho êxito lecionando oficinas. Santos ainda guarda a tradição dos mecenas para nossa sorte. Através do amigo misto de empresário e artista Geraldo Pierotti, pude conhecer o empenho de Mário Flávio, gentleman cosmopolita, na gestão de outro casarão exitoso, nossa Pinacoteca Benedicto Calixto. Conto com o jovial bom senso do prefeito Rogério Santos para refletir com sua equipe e a comunidade um destino compatível com a potencialidade desse portento urbano na mesma quadra onde nasceu e cresceu Ribeiro Couto. Não poderia ser mais oportuna reportagem da sempre antenada Arminda Augusto, que tem sido canal vivo de comunicação de nossas cabeças pensantes que insistem com o futuro desta ilha mítica. Conheci essa pequena quinta em muitas fases com o dândi amigo Rafael Moraes, que tanto fez por sua manutenção. Que convite ao deleite cultivado nos pede a placidez de mormaço em seu avarandado com bafejo de saudade, exercitando o devaneio... A pandemia não nos ensinou que a vida não se faz de home office ébrio de digitalidade? Santos carece de espaços para leituras compartilhadas, equipamentos lúdicos, áreas de lazer para a reflexão conjunta, a redescoberta do passado vívido, as rodas de conversa em torno do livro, além do cinema de arte e dos sons das flautas e violões. Como dizia Oscar Wilde: “Ao artista cabe fazer o que é belo, ao Estado o que é útil”. Que outra finalidade útil à beleza da arquitetura senão a beleza da alma que cria, encanta e compartilha? Recheio de arte não falta para esse palacete que melhor encarna nosso povo!