(Vanessa Rodrigues/AT/Arquivo) Quando eu era criança, nos anos de 1960, eu adorava quando me levavam à Praça dos Andradas. Além da Rodoviária, portal para novos horizontes, e da magnífica arborização, havia os bichos-preguiça que “calmamente” conviviam com os transeuntes, num tempo em que Santos tinha por volta de 260 mil habitantes. A Cadeia Velha, cuja função carcerária foi desativada em 1981, passando a ser subordinada à Delegacia Regional de Cultura, também se destacava. Costumo caminhar pelo Centro após o almoço, nos dias úteis. Observo o entorno, mas não necessariamente o vendo, pois minha mente não para de trabalhar, maturando ideias, pensando em como solucionar problemas, lembrando de coisas e viajando em pensamento. Foi preciso um sábado distraído, quando o ônibus que me levaria a São Paulo a contornava, para eu observá-la com mais vagar, como fazia na infância. Vi canteiros e equipamentos urbanos destruídos, mato brotando em meio às juntas do piso de mosaico de pedras encardidas, enfim, um cenário lúgubre, que é a primeira imagem que quem chega de ônibus interurbanos a Santos tem. Não sei por que insistem em usar pisos de mosaico de pedra em espaços públicos. Além de sua execução ser penosa para os operários, sua manutenção é difícil pela própria forma como é executado. Há quem diga que “tudo é ruim quando é malfeito”, ignorando que o fazer é o mais “simples”. O problema está no manter. Para limpar o encardido, é preciso lavar, o que destrói aos poucos o rejunte das pedras, naturalmente poroso. Já é tempo de pensar em soluções que aliem estética, execução e manutenção, e não apenas beleza para quem olha o projeto ou do alto. Mas não é só isso: trata-se da Praça dos Andradas! Santos tem por hábito ter praças com nomes de uns e monumentos em homenagem a outros. Por uma questão de coerência, a Cadeia Velha deveria sediar um memorial dos Andradas. Esse memorial comporia com o Panteão dos Andradas, existente na Praça Barão do Rio Branco. Pela importância histórica de José Bonifácio e seus irmãos, a Praça dos Andradas e tudo o que a compõe, inclusive a Cadeia Velha, deveriam ser um patrimônio nacional dedicado a eles, com recursos regulares disponibilizados pela iniciativa privada, com base em benefícios fiscais. Para tanto, é fundamental que os governos municipal, estadual e federal se unam, para definir como essa proposta pode ser viabilizada. Com isso, talvez a Praça dos Andradas se torne uma das poucas a ter sua denominação efetivamente compatível com o que abriga, além de compor a revitalização do Centro Histórico de Santos. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras