(Matheus Tagé/AT) A primavera nos trópicos parece ter sempre pressa de verão. A chegada de transatlânticos de outros portos mágicos faz de Santos morada rara para a estação dos corpos ardentes. Mas nem só de praia é a temporada de sol, suor e almejo de brisa. Não se pode atribuir ao verão ausência de espírito e introspecção. Lê-se muito nas férias, ao cinema sempre se acorre mais no período e ao crepúsculo dourado sempre cai bem o desfrute de alguma arte. É assim em Brighton, Biarritz, e, claro, neste porto mítico. No aconchego da barra, medrando o estuário, no burburinho dos calçadões existe uma atávica cumplicidade entre Santos e a felicidade escaldante. Perdi a conta de quantos verões espreitei o pôr do sol entre os janelões centenários da casa de dona Edith Pires Gonçalves, entremeados de violinos, saraus de poesia e os antológicos concertos natalinos. Já na sua maturidade, depois de sucessivas gestões exitosas, a sede eterna de Calixto tem seu ápice na gestão de Roberto Santini. A governança de espaços culturais requer uma sutileza extrema num país tão carente e ao mesmo tempo sequioso por cultura. A Pinacoteca é realmente de todos, incluindo atrações para todos gostos, faixas etárias e extratos sociais. No Brasil, a suntuosidade de espaços de exposição ainda intimida, por atribuir-se erroneamente arte a elitização. No Casarão Branco, felizmente, esse atavismo nacional foi ultrapassado. Em dois anos. pude presenciar desde a irreverência do querido Aguilar ao esforço ambiental do mestre Araquém Alcântara. O Coral da Pinacoteca, da maestrina Simone Schumacher, é um caso sublime de pesquisa musicológica com acessibilidade de repertórios, do clássico ao pop. Da distribuição de livros aos recitais promovidos pelo programador Fábio Salgado, tudo constitui capítulo precioso de nosso cronograma regional. Mantenhamos o sonho do Museu de Arte Contemporânea coroando esse complexo majestoso. Quanto bem o Museu de Niemeyer fez a Niterói! A terra de Mário Gruber, Wega Nery e Armando Sendin bem merece um espaço permanente e multimeios que catalisem todo roteiro cultural da terra. Dos milhares de passageiros de transatlânticos, grande parte, especialmente estrangeiros, buscam o roteiro de exposições, seja em visita ao Museu do Amanhã, no Rio, os acervos sacros de Salvador ou o Malba argentino. No momento certo, creio que as condições objetivas para o projeto de Paulo Mendes da Rocha se concretize. De toda forma, a orla no verão tem tudo a ver com o Casarão. O bosque, sua luz específica, o acolhimento dos jardins, a localização, parece tudo confluir no cenário embebido de alma. Se a pequenina Porto Ferreira é procurada pelo Museu de Gilberto Chateaubriand. criado numa fazenda no Interior paulista, como nossa pérola à beira-mar não será palco privilegiado na alta temporada? Nem só de bronzeado vive o turista de bom gosto. Até resorts investem hoje em piscinas para surf, mil quilômetros longe da costa! Enquanto isso, a busca por arte em shoppings, condomínios de luxo, mostras imersivas provam que existe mercado, sim, para nosso balneário apostar ser mais e mais inserido no circuito de exposições, seminários, festas literárias e música. Nossa Pinacoteca é protagonista central do panorama que se descortina. A reunião do G20, de líderes mundiais, será no MAM – Rio. Aqui, o futuro da Cultura de nossa região de 2 milhões de habitantes será abordado hoje, na Pinacoteca. Exemplos de que arte e futuro têm tudo a ver. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das academias de letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos