(Freepik) Durante muitos anos, ainda na minha adolescência, senti a presença do amor incondicional por parte de alguém que não era meu parente direto. Ela era uma inquilina de um quarto na casa de meus avós maternos. Vivia ali com o marido, zelador de um prédio na Praia do Boqueirão, em Santos. Não tiveram filhos. Ambos, na época, já estavam perto dos 60 anos. Eu a via todos os dias da semana, quando voltava do Colégio Canadá. Não via a hora de chegar naquele pequeno cômodo, onde ela já me esperava com um pratinho com pedaços de pão amanhecido. Ao lado, uma lata de azeite Gallo. A porta estava sempre aberta nesse horário, como a que me esperar para me servir o pão molhado no azeite. Um ritual que me deliciava antes de ir para casa almoçar. Ali, nessa meia hora de relacionamento, me perguntava sobre a escola e, invariavelmente, me contava um fato ocorrido naqueles tempos, quase sempre sobre algum acontecimento policial. Ela adorava narrar essas histórias e eu, atento a todos os detalhes, ouvia com natural entusiasmo. Era a minha repórter preferida. Cada dia um caso. Vez ou outra pedia para detalhar melhor um deles já narrados. E ela o fazia com maestria e dedicação, alterando a voz para enfatizar algo. A chamava de tia. E foi assim desde que nasci. Tenho ainda um retrato dela me segurando nos braços, recém-nascido, como um troféu, posando para a foto na entrada da casa de meus avós. Para ela, eu era o Carlinhos. Dividia o nome com minha avó, de quem era amiga, além de inquilina. Passei muitos anos para entender que amor era aquele. E nunca tinha reparado que sobre a pequena mesa com duas cadeiras, ela me servia tudo o que tinha para servir. Os pedaços de pão com azeite e suas histórias. Para ela, o importante era a minha presença em seus pequenos domínios. Passou o tempo e cresci. Já não ia com tanta frequência ao quarto. E somente muitos anos depois, desde que deixou o cômodo após a morte do marido, eu a encontrava ocasionalmente, nas Lojas Americanas. Largava tudo para me abraçar, passar suas mãos pelo meu rosto, perguntar o que fazia, um interesse ainda vivo em seu olhar brilhante, até a despedida. Como foi desde sempre pedia a mim a proteção divina. Não soube mais dela. Por um período eu ia até a loja, mas não a encontrei novamente desde a última vez. Vivo ainda uma espécie de ingratidão, de minha parte, por não ter compreendido com o entendimento que tenho hoje quão preciosos eram aqueles momentos para ela, e que talvez tenha morrido sem entender também por que teve que ser assim. *Jornalista e escritor