(Unsplash) A explosão do conhecimento médico exige uma profunda releitura sobre a educação médica, incluindo o que ensinamos e avaliamos, e como educamos. As coisas estão mudando rapidamente. Os profissionais de saúde gerenciam quantidades de conhecimento e dados relacionados ao paciente sem precedentes. A quantidade de conhecimentos em cada especialidade é cada vez maior, e o estudante deve sair de cada estágio e fase com os conhecimentos necessários do médico generalista. É na residência médica que vai se especializar. A educação médica existe para atender às necessidades de cuidados de saúde da população. No entanto, apesar das rápidas mudanças nas ciências da saúde, cuidado à população e sistemas de saúde, a estrutura da educação médica permaneceu amplamente uniforme e impregnada de tradição há mais de 100 anos. Os cuidados de saúde no Brasil não conseguiram otimizar a saúde da nação, com questões como cuidados ineficientes, iniquidades nos cuidados de saúde (sistema público vs. saúde suplementar), incorporação racional de novas tecnologias e custos crescentes. As necessidades da força de trabalho regional, em um país com dimensões continentais e com escassez de profissionais em áreas mais remotas do Brasil, devem catalisar o desenvolvimento de novos caminhos para programas de medicina, como um plano de carreira. Há constante desgaste dos alunos por esgotamento, com depressão e outras condições de saúde mental. Estão expostos a um excesso de informações, à necessidade de enfrentamento de situações de sofrimento e morte e a uma grande incerteza de inserção no mercado de trabalho, em um contexto de proliferação de escolas médicas. Hoje, há mais vagas do que candidatos nos vestibulares para medicina. Algumas instituições sequer fazem o vestibular tradicional. A forma como secularmente aprendemos Medicina é obsoleta, com longas aulas magnas e cobrança por meio de avaliação somativa, com uma prova ao final do estágio. Uma necessidade atual é promover novos métodos para ensinar e avaliar competências-chave para estudantes de Medicina, criando caminhos de aprendizagem mais flexíveis e individualizados. A educação médica baseada em competências (da sigla em inglês CBME) visa definir quais conhecimentos, habilidades e atitudes os treinandos devem demonstrar para significar prontidão para entrar no próximo estágio de treinamento e eventual prática não supervisionada. A avaliação deve ter um componente formativo, com constante feedback ao longo de todo o período de estágio, e não somente baseada na prova ao final. O cuidado eficaz ao paciente exige que os médicos mantenham um domínio firme de conceitos fundamentais, aliado à capacidade de acessar e utilizar informações atualizadas. O moderno estudante de Medicina precisa ter uma compreensão profunda da tecnologia da informação. A inteligência artificial, por sua vez, já é uma realidade sem volta. É difícil prognosticar a extensão de seu papel. Assim, além dos alunos, os educadores devem aproveitar a informática para melhorar o próprio processo de educação, possibilitando uma educação de precisão. Isso é um enorme desafio, muitas vezes. O desafio é grande: formar médicos com habilidades no gerenciamento dos conhecimentos prevalentes e básicos adaptados à nossa população, com atuação humanística e empática, e aptos a enfrentar o estresse e o burnout da formação e da atuação profissional. Isso tudo deve atender às necessidades de nosso sistema de saúde assimétrico. Hoje, não se fala somente de se atualizar tecnicamente em Medicina. Temos que reaprender a ensinar e também aprender a aprender. * Rogério A. Dedivitis. Professor livre-docente do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, especialista em Educação Médica pelo Centro de Desenvolvimento de Educação Médica da Faculdade de Medicina da USP.