Imagem Ilustrativa (Pixabay) Nenhum ritmo me pareceu mais próximo da poesia que o jazz. A busca de um sentido indefinível, perguntas sem necessidade de conclusões e sentimentos autoexplicáveis, como os “satoris” no budismo. O jazz mimetizando a fé cósmica num infinito sem dogmas, só o eco penetrante do eterno. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Einstein, quando disse que Deus não joga dados, nunca se rendeu aos quânticos, mas os poetas sempre se deram melhor com as vibrações do improviso. Quando perguntavam a Louis Armstrong o que era o jazz, sua resposta era seca: “Se você não sabe o que é o jazz, não adianta eu explicar”. Assim é a poesia da ordem do insondável que nos arrebata, o insubstancial que nos perpassa. Neste fim de julho o jazz impregna a ilha, o cais, os arcos seculares do Valongo como metáfora do momento mágico que Santos vivencia de núpcias da arte com a noite resgatada. Aliás, Santos e o jazz têm uma longa estória de amor. Nos anos 50, aportava no inesquecível Clube XV o band leader Stan Kenton e na mítica Boca um norte-americano apaixonado pelo Brasil veio para ficar: Booker Pittman, de longa família jazzística ianque e pai da nossa Eliana Pittman! E o que dizer das pratas da casa? Laurindo de Almeida, nascido em Miracatu e crescido em São Vicente, que encantou Hollywood com seu violão? E o maestro multi-instrumentista Roberto Sion, tão santista quanto o vento noroeste? Maior cumplicidade não há do que a existente entre o solo de sax e as brumas hibernais entre a serra e o mar. Na sua 12ª edição, o Santos Jazz Festival é exemplo comovente de crença em nossa terra. O empenho de Denise Covas e Jamir Lopes tem desenvoltura nacional a carrear talentos do mais cosmopolita dos gêneros. O jazz é mais que gênero musical, é trilha sonora para um estilo de vida como o filme noir. A apresentação da programação na Casa das Culturas foi antológica! Que força no som de Theo Cancello. E o que é a voz da querida Monna? Monna sim! Um estrondo feito Sarah Vaughan reencarnada! Não bastasse o virtuosismo dos convidados, o Santos Jazz cria uma atmosfera orgânica de resgate e justiça às diversidades só agigantadas pelo tempo. Milton Nascimento homenageado, o engajamento visceral de Mercedes Sosa e a abertura com Alaíde Costa compõem tríade sagrada de louvor à arte contra todos os preconceitos. Alaíde é força da natureza, uma potente ternura tão ausente na brasilidade, tessitura ímpar celebrada no Carnegie Hall e Cannes ainda que sua trajetória na bossa nova falasse por si só do patamar de deusa! Nesse tom de não mais tolerar apagamentos de talentos não poderia faltar um tributo a Johnny Alf, precursor de todos experimentos agora num delicioso neologismo celebrado GênioAlf! Johnny apaixonado pela boêmia santista imortalizando-a em Bar da Praia ao amigo dele e nosso Eduardo Caldeira! Não tem conta o quanto o jazz me trouxe sinestesias para poetizar o instante irrepetível! Fenômeno estético e social, o jazz é rebelião por essência, insurgente. O jazz do delta do Mississipi, o jazz existencialista de Paris, o jazz melancolia de Mulligan- Piazzolla, o jazz gay do Village, o jazz santense que todo ano esperamos tão cool quanto Miles Davis praiano. Quer entender o jazz? Eric Hobsbawn te explica! Agora, curtir o Santos Jazz Festival numa jam session de luta e maresia!