(Wikimedia Commons) “Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor!” Foi em 1877 que Machado de Assis escreveu essa frase na abertura de seu texto O Nascimento da Crônica, publicado na revista Ilustração Brasileira. Quase 148 anos depois, cá estamos a dizer: que calor! Não pretendo me igualar ao mestre Machado, mas hoje quero propor o renascimento da crônica pelo mesmo motivo. Semana passada fez um calor dos diabos, de rachar passarinho mesmo! Antes do início da manhã, já beirávamos os 30 graus. Daí para diante, foi carne no espeto e fogo na brasa. O churrasco éramos nós. Era de fazer um homem doido realmente! Restavam-nos apenas as conversas curtas carregadas de lamúrias. As aulas nas três escolas em que trabalho foram deveras comprometidas. Crianças e adolescentes, naturalmente agitados, estavam agitados e meio. Digo mais: agitados ao quadrado! Cheguei a pensar que a fatal curiosidade de Eva tinha dado o ar da graça e nos feito perder o paraíso outra vez, nos obrigando a vestir mais uma camada de roupa para cobrirmos as vergonhas. Mas não. Era, na verdade, o mundo queimando em labaredas da emergência climática, nossa antessala do inferno. O bom é que não faltaram oportunidades propícias ao renascimento da crônica. Era possível ver novamente duas vizinhas sentadas à porta, para debicar os sucessos do dia. No entanto, os sucessos de hoje são muito diversos dos sucessos de outrora. Onde moro é difícil espichar o olho para as plantações do morador fronteiro, pois não há plantações. Mas não falta oportunidade para se lançar sobre o vizinho a curiosidade sobre suas tropelias amatórias, pois há muitos prédios próximos uns aos outros. Prato cheio para os cronistas deste verão abusivo. Eis a origem da crônica do mundo fervente de hoje. Com isso, também podemos hoje dizer que a verdade mais incontestável que se acha debaixo desse sol de agora, é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra. E eu também não afirmo sem prova. Não fui a um cemitério, mas diariamente transito por duas rodovias estaduais. Ao cruzar o trecho da Imigrantes que corta São Vicente, numa manhã de quarta-feira ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações, me deparei com um recapeamento de meia pista. O sol das 10 horas batia de chapa em todos nós, mas sem lançar-nos para fora dos veículos de interior refrigerado. O tráfego era lento, o que atrasou minha chegada à escola e o início de meu expediente. Passando ao lado da obra, avistei vários homens cobrindo buracos: estavam com uniformes de tecido grosso alaranjado, cabeças cobertas por incômodos capacetes, a erguer e fazer cair a pá, espalhando o asfalto quente. Continuei meu trajeto, no conforto do ar-condicionado até chegar à escola. E eles? Lá estavam, lá continuaram, ao sol, sobre o asfalto quente. Se o sol me fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia? *Escritor e professor de Língua Portuguesa e Literatura