[[legacy_image_285058]] Houve um tempo em que as casas tinham quintais, alguns fartos, outros menores, mas sempre havia um pé de qualquer coisa a oferecer o fruto fresco aos que ali habitavam. O quintal de meus avós maternos era desses fartos. Na minha infância, parecia que uns quilômetros me separavam do muro dos fundos. Tantas árvores frutíferas, goiabeiras, caramboleiras, pitangueiras, ameixeiras, bananeiras, sem contar os pequenos pés de hortaliças e de ervas de condimentos que cresciam à sombra dos arvoredos, onde os pássaros se deliciavam e os morcegos hibernavam para saírem à noite. Um galinheiro bem construído era dono de uma das laterais. Ali, minha avó buscava os ovos e o prato de domingo, que ela mesma preparava, desde o corte certeiro, ao desplumo, ao tempero com poções mágicas que ela guardava na memória e à apresentação final na mesa de todos nós. Eu, meu irmão e primos tínhamos um pouco de pavor ao ver aquela matança, até porque corríamos atrás de muitas das galinhas que, por escolha aleatória, já não estavam mais ali. Mas o alimento era por todos saboreado com o louvor de sempre, agradecendo a Deus pela fartura que Ele nos proporcionava. Os vizinhos da rua onde morávamos também tinham quintais bem arborizados. Os da casa da frente tinham uma caramboleira que era a festa das crianças, tanto na subida aos galhos mais altos quanto no encher de baldes e bacias para comer depois. Na nossa casa, havia uma ameixeira, com aquelas ameixas amarelas e suculentas, um limoeiro sempre produzindo e um roseiral do qual meu pai cuidava com exímio rigor, do qual saltavam rosas multicoloridas para deleite de minha mãe, parentes e visitantes. Não importava muito se a goiaba tinha bichos, se a ameixa ainda estava verde, se a pitanga era azeda ou se a carambola tinha partes amassadas ao cair no chão. Todas as frutas eram válidas e devoradas com o mesmo prazer. Depois, já um jovem jornalista, tive o meu próprio quintal, vasto e produtivo, com uma goiabeira, um coqueiro que dava coco, como Ary Barroso imortalizou em Aquarela do Brasil, uma horta com pés de alface, cenouras e outros vegetais, um pé de maracujá que florescia correndo por um muro, e lá nos fundos o galinheiro que instalei só para colher os ovos dos cafés das manhãs. No início do quintal, havia um forno a lenha, e uma churrasqueira de pedra, a nos convidar para pratos que mereciam bis em todas as refeições. Havia também nos quintais muitos cães, gatos e até coelhos, correndo livres por todos os cantos, numa harmonia de brincadeiras sadias que nos tornavam livres também. Tudo isso vem se perdendo aos poucos. O quintal de meus avós virou um pequeno prédio, que meu avô mandou construir para alugar e dar uma renda a mais à família. Muitas casas viraram prédios, cujos moradores se abastecem nos hortifrútis próximos. O sabor da fruta mudou. Mas quem saboreou uma no pé, como eu e tantos, jamais se esquece da qualidade, do gosto e da saudade que dá desse tempo. O tempo dos quintais que nos abraçaram e nos deixaram nostálgicos.