Imagem ilustrativa (Freepik) Em avenidas largas, recém-construídas e iluminadas pela eletricidade, viam-se mulheres com silhuetas de ampulheta, moldada à força de espartilhos e escondida sob camadas de tecidos. Na cabeça, os cabelos eram presos em coques e adornados com chapéus de aba larga enfeitados por véus. As mãos cobriam-se com luvas três quartos. Os homens vestiam ternos, cartolas e bengalas; à noite, substituíam-nos por fraque, coletes e gravatas-borboleta. Um cenário parisiense, não fosse por seu endereço nos trópicos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Se Paris teve Georges-Eugène Haussman e a Avenida Champs Élysées, o Rio de Janeiro, teve Pereira Passos e a Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Os cariocas testemunharam o projeto “bota-abaixo” no início do século 20. A primeira República não hesitou em apagar vestígios da Monarquia, ainda que isso implicasse a expulsão de moradores pobres do centro antigo da cidade. Esses tempos de importação de hábitos e costumes europeus trouxeram-nos o futebol. O Brasil escravagista não fazia parte desse cenário; eram as elites urbanas, desde então, que ditavam a moda, e a partir de certo momento, passaram a incluir o futebol. O primeiro clube a se organizar em torno do novo esporte foi o Fluminense, fundado em 1902. Foi em sua sede, nas Laranjeiras, que, em 1914, a seleção brasileira disputou sua primeira partida oficial. Eram eventos sociais dos mais refinados e elegantes, sobretudo no tricolor carioca, clube da aristocracia fluminense. As mulheres se vestiam como se fossem ao Grande Prêmio Brasil de Turfe; os homens, de chapéu-palheta nas arquibancadas; os diretores do clube, de cartolas. Um dos principais jogadores dessa época era Preguinho, centroavante habilidoso e o primeiro a marcar um gol pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo. Ele era filho de Coelho Neto, renomado membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de número 2, ao lado de Machado de Assis. Além de escritor e crítico literário, Coelho Neto é considerado o primeiro cronista esportivo do País. Tricolor fanático, comentava os jogos em sua coluna semanal no Jornal do Brasil. Em uma de suas crônicas, descreveu a ansiedade que tomava conta das arquibancadas diante de um gol que teimava em não sair. Sob um calor de 40 graus, senhoras de luvas e cavalheiros de chapéus enfrentavam o desconforto da elegância. Suados, torciam suas luvas e chapéus como se torcessem o próprio destino da partida. Ao final, as torcedoras e os torcedores do Fluminense sentiram-se aliviados com o lindo gol de Preguinho. O futebol brasileiro ganhava suas primeiras torcidas e o País, sua mais duradoura paixão.