(Reprodução Instagram) “Mulher no volante, perigo constante!” Pilotar, conduzir, governar. Será que isso é “coisa de mulher”? Pois bem, a eleição presidencial dos Estados Unidos, nação mais poderosa do planeta, revisita esse velho debate. Em um cenário de reviravoltas, Kamala Harris assume a possibilidade e o desafio de provar que é capaz de comandar um país que é detentor do maior PIB do mundo (estimado em cerca de \$26,9 trilhões em 2023) e que representa, sozinho, 24% do volume de todo o globo. Seria ela a primeira mulher da história a ocupar a presidência dos Estados Unidos? Seria isso, de fato, um avanço significativo na representatividade e inclusão ou finalmente uma comprovação da capacidade feminina, em busca da tão almejada igualdade de gênero? São perguntas perigosas. Mas por que deveriam ser, se mundo já teve suas grandes comandantes? Entre elas, Cleópatra, cujas conquistas eram frequentemente atribuídas à capacidade de sedução. Outras mulheres icônicas, como a rainha Elizabeth I, eram vistas como figuras de grande realeza, diplomacia e elegância, porém meramente representativas (herdeira do trono). Fora desse campo, madre Teresa de Calcutá, um exemplo de abnegação e pureza, teve suas conquistas atribuídas à devoção, fé e um poder superior. Mérito, competência, capacidade de gestão. Por que essas características não são lembradas quando falamos de grandes mulheres líderes? Historicamente, essas não são tarefas confiadas a mulheres. Evitar o poder feminino não é proteger a feminilidade, a família e a maternidade. O perigo está em impedir que uma pessoa capacitada exerça sua função por conta de seu gênero. Atitudes sexistas e misóginas, sim, são perigosas. Desvalorizar a capacidade e contribuição das mulheres, negar oportunidades e impedi-las, até de forma violenta, é algo alarmante. Vamos ser francos: já foi o tempo da opressão. O mundo tem quase 3,9 bilhões de mulheres, praticamente a metade (49,6%) da população mundial. E deste total, 2,5 bilhões são eleitoras. O voto feminino existe desde o final do século 19. A Nova Zelândia foi o primeiro país a conceder o direito de voto às mulheres em 1893. No Brasil, as mulheres votam desde 1932 e nos Estados Unidos, desde 1920. Faz mais de um século que a mulher pode votar, mas governar ainda é tabu. Discutir sobre as eleições do maior país do mundo nos faz refletir sobre esse perigo todo! Mas, será que um mundo que insiste em desvalorizar o potencial da mulher é seguro? Ou será que a verdadeira ameaça é continuar perpetuando uma mentalidade que ignora a capacidade e mérito por conta do gênero? Vamos aproveitar esse momento para rever a direção e conduzir nossos pensamentos de forma livre de julgamentos. A escolha de quem vai pilotar esse mundo tem que ser com base na capacidade e no mérito e não no gênero. Somos capazes de mais do que isso. Foquemos em debates produtivos, que explorem ideias e propostas, para escolher o mais preparado a assumir o volante! *Christiane Disconsi. Jornalista e cientista polític