(Reprodução) Em 1981, quando estava no quarto de um hotel no Quartier Latin, em Paris, que me lembrei de um livro com edição em espanhol que ganhara de um amigo, semanas antes, em Genebra. Aquele pequeno exemplar, tirado da mala, logo me chamou a atenção pelo título, tão longo e incomum em livros: “Relato de um Náufrago, que esteve dez dias à deriva numa balsa, sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas de beleza, enriquecido pela publicidade, e logo abandonado pelo governo e esquecido para sempre”, de Gabriel García Márquez, o Gabo, que a partir daí se tornou o meu escritor preferido. O livro foi lançado anos após a publicação da história real de um náufrago, por meio de episódios veiculados por 14 dias seguidos no jornal El Espectador, de Bogotá, Colômbia, onde Gabo atuava como jornalista. Conta a saga de um marinheiro, único sobrevivente de uma tormenta que teria provocado a queda ao mar de oito tripulantes de um navio da Armada colombiana, em viagem pelo Caribe, em 1955. O marinheiro, alçado a herói da pátria pela ditadura da época, permaneceu algum tempo calado num hospital militar. Depois, percorreu o país, até que meses depois ficou diante de Gabo no jornal, onde quis vender o que seria a história real da sua epopeia. Ali revelou o verdadeiro motivo do drama vivido por dez dias numa balsa até dar a uma praia e ser socorrido. Gabo tinha nas mãos um relato tão repleto de detalhes e com revelações por demais impressionantes que preferiu não assinar a reportagem com o seu nome. Saiu com o relato em primeira pessoa. Os fascículos iniciais foram recebidos com festa pelos ditadores de plantão, porque até então refletiam os dados oficiais sobre a tragédia. Mas Gabo guardara para o final a verdadeira história dos fatos. Quando a publicou em detalhes, o governo tentou desmentir a reportagem com notas oficiais. A reação não tardou: o jornal foi fechado e Gabo seguiu para um exílio em Paris. Consagrado como escritor no estilo de realismo mágico ou ficcional em seus livros, Gabo conquistou o Nobel de Literatura em 1982, pelo seu escrito mais famoso, “Cem Anos de Solidão”, que agora será lançado como filme. Tenho, desde então, em minha biblioteca pessoal, todos os livros escritos por ele. Mas fica para mim e para tantos outros fãs, diferentemente de seu estilo célebre, essa obra de jornalismo investigativo, com uma história real e ao mesmo tempo fantástica que daria um longa-metragem de sucesso garantido. Fica a dica para quem não leu. *Jornalista e escritor