(Gaspar Nobrega/COB) A realização dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos em Paris mexe com todos, em especial com os atletas que estarão presentes. Essas competições acontecem a cada quatro anos. O impacto emocional, a qualidade e o que é gerado de valor para esse evento são enormes. É por isso que, muitas vezes, nossa mente se boicota, tentando nos precaver e nos tornando mais ansiosos. Temos que estar bem preparados para não entendermos desta forma e não reagirmos de forma errada. O dom, o preparo e a constância diferenciam um atleta de alta performance do amador. A mente tem de estar muito mais condicionada do que a preparação física porque tudo do meio externo vem primeiro no cérebro, não importando se o atleta está com o melhor preparo físico. Se emocionalmente ele estiver desestruturado, não adianta nada ele se apresentar fisicamente condicionado. A aplicação dos conceitos envolvendo autoconhecimento para atletas é definida apenas se o esporte é individual ou coletivo. E não varia de treinos para competições. O que separa um do outro é só o valor emocional de como aquilo é recebido pelo sistema nervoso. Todo treinamento mental, com reestruturação das memórias, é feito bem antes, na preparação. O roteiro da busca pelo autoconhecimento geralmente acontece nos piores momentos. E com o atleta não é diferente. O problema só é reconhecido quando se gera uma dor, uma causa, um impacto. Dentro de um esporte coletivo, o futebol, por exemplo, há particularidades fora de campo. A quantidade de recursos e dinheiro que são conquistados é muito grande. A partir do momento em que o jogador tem um salário alto, não há porque achar e acreditar que a culpada seja a mente dele. O dinheiro faz com que ele visualize e boicote muita coisa na vida, burlando e camuflando os erros. Ele passa a acreditar que é perfeito. Os atletas brasileiros, em especial, não estão preparados para essa mudança causada pelos ganhos estratosféricos proporcionados pelo futebol. O motivo está justamente na origem humilde da maioria, que pode gerar sérias e tristes consequências no futuro. O padrão fisiológico mental tem outro condicionamento porque eles vêm muito de baixo. A mente deles está condicionada ao sofrimento e ao erro. Quando ele ganha esse valor exorbitante e muda de vida, desestrutura. Muitas vezes, o atleta acaba indo para o álcool ou alguma coisa pior. O jogador de futebol, em especial, é muito solitário. E a pior doença do mundo é a solidão. Então, ele precisa suprir com algo para fazer a vida melhorar e se boicota com argumentos e situações em que ele possa favorecer esse estado de solidão. Nos campeonatos americanos e europeus, há sempre a presença de alguém ligado à mente, seja um psicólogo, um coach ou um terapeuta, que sempre alinha junto com o treinador. É ele que vai conduzir a mente do atleta - totalmente desestruturada porque ele está em fase de jogo, de competição - para alinhar melhor as estratégias. Infelizmente, o Brasil está muito atrás ainda neste aspecto, ainda que os atletas tenham mais consciência dessa necessidade do autoconhecimento. Quem está começando a entender isso sai na frente. *Renato Troglo. Especialista em autoconhecimento e neurociência do comportamento