(Divulgação/Prefeitura de Cubatão/Arquivo) Na fronteira entre Cubatão e a natureza há um jardim industrial construído por Burle Marx. Entre o industrial e o natural, habita um limbo estético chamado Zanzalá. Seja por progresso ou decadência, a indústria é a engrenagem que produz o capital. Em Cubatão, parque industrial do nosso Litoral paulista, há inúmeras esculturas secretamente espalhadas pela cidade. Em frente à Igreja Matriz há um Camões, na Refinaria o Getúlio. Numa outra fronteira, um jardim elaborado pelo arquiteto modernista Roberto Burle Marx, defronte a Anchieta e o Cepema (USP), cujo projeto original de 1990 era um conjunto de plantas e águas onduladas com uma pirâmide feita de aço no centro. Ironicamente, foi seu pai quem fundou a primeira fábrica cubatense, Cia. Curtidora Marx (1912). Oitenta anos depois, B. Marx é convidado por Nei Serra para colorir a paisagem da cidade quando o cinza industrial dava lugar ao discurso semiótico de recuperação ambiental – ninguém melhor que o responsável pelas calçadas de Copacabana, no Rio de Janeiro, e os jardins do Itamaraty, em Brasília. A composição deste jardim torna-se mais interessante quando cruzamos a origem do paisagista com o filósofo comunista Karl Marx, que é primo do bisavô de Roberto. Habitando o centro, a pirâmide é duplamente política: de aços retirados direto das indústrias cubatenses por mãos fabris para compor uma escultura (materialidade política e estética); e a referência à figura vem do romance Zanzalá do cubatense Afonso Schmidt, que representava na novela o prédio central que administraria a cidade do futuro. O vínculo materialista conjugado intencionalmente pelo urbanista levanta uma inteira discussão política sobre o produto não virar mais-valia e sim obra de arte. Na sinfonia industrial entre cidade real e cidade imaginada, percebemos as fissuras de hierarquias e poder que o capital, através do aço, impôs sobre as artes e cultura da cidade – subvertidos pelo construir crítico de Marx. O poder, oriundo das Serras que é transformado em artificial, convertido em produto e depois em lucro, deve ser reapropriado na paisagem cubatense agora sob o ponto de vista literário, imaginativo e político! No jardim das indústrias a utopia operária resistirá, forjada no aço cubatense e margeada pela encosta serrana a chuva sem acidez haverá ainda de cair sob os lírios do brejo que perfazem o caminho do mar. Este texto pertence à série Margens, cujos pequenos ensaios buscam resgatar o legado de grandes artistas do século 20 que passaram ou nasceram na Baixada Santista e foram esquecidos. *Professor de filosofia, escritor e ensaísta cubatense