(Alexsander Ferraz/AT) Nós lemos, sentimos os efeitos, mas na verdade não conhecemos o tema das mudanças climáticas. Tentarei explicar em partes essa relação. O conceito inicial é de uma saúde única (one health), reconhecendo a absoluta interligação da saúde humana, animal e do meio ambiente. Sendo assim, precisamos dialogar e agir de forma plural. O segundo é conhecer o aquecimento global decorrente do acúmulo de gases de efeito estufa, sobretudo o dióxido de carbono (CO2), resíduo maior do nosso estilo de vida moderno movido a petróleo. Em 2024, batemos o recorde de acúmulo do CO2, fato diretamente proporcional à subida dos termômetros. No ano passado, o aumento da temperatura do planeta foi de 1,3°C, quase o limite do estabelecido no Acordo de Paris, que é de 1,5°C até 2100. Foi o recorde desde 1976 e as consequências disso tudo já são sentidas nas alterações dos ecossistemas terrestres, aquáticos e marinhos, na perda da biodiversidade e nas alterações dos ciclos naturais sazonais. Esse todo, por sua vez, impacta na oferta de água e alimentos, interferindo na saúde e bem-estar e desafiando a infraestrutura das cidades e da cadeia de produção. E não estaremos sós porque o mundo econômico colapsará globalmente. E será um tempo em que a maior parte da população viverá 365 dias por ano com temperatura e umidade que colocarão as suas vidas em risco. Todo dia morreremos por isso. Aliás, já morremos! Cerca de cinco milhões de mortes por ano são decorrentes de temperaturas não ótimas. A cada 100.000 pessoas, 74 morrem em decorrência disso e desde 2000 as mortes por calor só fazem aumentar, sobretudo na Europa e Oceania. Os nascidos em 2020 sofrerão de quatro a sete vezes mais as consequências das temperaturas extremas. Sou infectologista e devo alertar que a dengue de 2024 e a pandemia de covid foram, e seguem sendo, apenas uma amostra do que poderemos enfrentar. O fato é que, de tudo que pudemos observar, os agentes infecciosos surgem ou ressurgem, o ambiente favorece a sua circulação e uma população que envelhece (perdendo a imunidade) e não toma vacina por razões ideológicas constituem o “novo normal” das doenças infecciosas nesses tempos de mudanças climáticas em que usamos o one health. E se antes as pandemias eram intervaladas em séculos, somente de 2002 para cá já tivemos quatro pandemias (sars, gripe suína, mers e a covid. Estamos aprendendo a responder aos desafios com o desenvolvimento de tecnologias diagnósticas, de vigilância, terapia e prevenção vacinal, mas isso não basta. Precisamos criar ambientes mais resilientes e ter atitudes que mitiguem as ações dos gases de efeito estufa. É um conhecimento recente para mim, e creio seja para a maioria dos que me leem, mas o cuidar também tem sua parcela de culpa. O setor da saúde é responsável por cerca de 5% das emissões de gases de efeito estufa. Nos EUA isso chega a 8,5%! Geramos 388.000 anos-de-vida (uma métrica dos impactos à saúde) com doença. E produzimos em três grandes frentes. Nas estruturas de assistência (cerca de 10%), no consumo de energia (outros 10%) e inacreditáveis 80% em 15 categorias diretamente ligadas ao cuidar, incluindo deslocamentos ou, mesmo, administrar medicamentos. Torna-se uma prioridade a descarbonização da saúde e do cuidar, o que podemos fazer com inteligência e otimização dos processos. Mas tem que ser já, desde a formação dos futuros profissionais. Encerro renovando a minha esperança em que vamos encontrar caminhos. É agora, para cada um, para todos nós! *Evaldo Stanislau Affonso de Araújo. Médico Infectologista, assistente-doutor da Divisão de Moléstias Infecciosas do HC-FMUSP