(Pixabay) Fim de ano chegando, época de encarar tarefas sempre adiadas, mas necessárias. Decidi enfrentar o desafio de arrumar meus livros que, ao longo do tempo, acumularam-se de modo desordenado e caótico em várias prateleiras. Antes de começar, tive a curiosidade de contá-los. Não um por um, mas estimando sua quantidade pelo espaço ocupado na minha biblioteca. Cheguei a um número aproximado de 3.000 obras, metade ficção, metade livros de política, sociologia, filosofia, ciência. Muito? Certamente para os nossos padrões. Li, desolado, que recente pesquisa apontou que 53% dos brasileiros não leram nem parte de uma obra nos três meses anteriores ao levantamento. Considerados livros completos, o quadro é mais terrível: só 27% responderam positivamente. Nos últimos quatro anos houve redução de 6,7 milhões de leitores no País: cada vez mais gente diz não “gostar de ler”. Nas minhas prateleiras está a minha vida. Comecei cedo, menino que cursava a 1ª série ginasial (o atual 6º ano do Ensino Fundamental), com 10 anos. Éramos obrigados a ler um livro por mês, e a oferta era (de modo inteligente e apropriado) composta de livros de aventura e fantasia. Hoje, as escolas indicam clássicos (que caem nos vestibulares...), mas que só afastam as crianças dos livros. Interessei-me por tais obras muito cedo, mas já despertado pelo gosto pela leitura, tendo passado pelas aventuras e pelos (deliciosos) romances policiais, que leio até hoje com grande prazer. Ler é exatamente isso: prazer. É evidente que se aprende muito (tudo, eu diria) com os livros, sejam eles quais forem. Fonte inesgotável de informação e cultura, induzem à reflexão, e são fundamentais. Mas ler não é obrigação, ou dever. Ao contrário, livros são companheiros alegres que nos trazem momentos únicos: descoberta, encanto, surpresa. Devo ressaltar que meus 3.000 livros são de papel, acumulados durante mais de 60 anos. Alguns estão perfeitos, novos: tenho cuidado e respeito reverencial por todos; outros, nem tanto, especialmente aqueles que consulto com frequência. Mas eles resistem ao tempo. Nem por isso deixo de me render à modernidade: já li muitos e-books (o número acima não os considera), e confesso que são práticos e econômicos, além de mais fáceis de encontrar e obter, notadamente os estrangeiros. Se um dia eu me aventurar a escrever minha autobiografia, certamente recorrerei aos livros que li para contá-la. Eles são minha razão e minha motivação, e creio que não passei um único dia da minha vida sem ler, nem que fosse uma página, além dos três jornais que percorro cotidianamente. A arrumação vai dar trabalho. Convoquei meus netos, Otávio e Davi, para me ajudar nesta tarefa. Desconfiados e relutantes, não sei se contarei com seu apoio na empreitada. Espero, porém, que manusear tantos livros, sentir seu cheiro ou limpar a poeira acumulada despertem algum interesse neles. Afinal, ler é a coisa mais importante do mundo, e eles precisam saber disso e mergulhar, desde já, na maravilhosa aventura que vai me acompanhar até o último dia da minha existência. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)