(Pixabay) Louco não é quem rasga dinheiro ou faz qualquer outra coisa que contraria o senso comum. Isso é insuficiente para definir aqueles que possuem intimidade com a loucura. Há uma característica essencial e atemporal nos insanos – uma espécie de RNA mensageiro comum em todos que desprezam processos cognitivos lógicos: achar que alienados são os outros. Para ser fiel a essa crença, sou inclinado a reconhecer que sou um legítimo doido, um louco raiz. Vivo o delírio de achar que a qualidade da educação no País é sofrível. Se não fosse louco, diria que o deboche com a formação escolar de crianças e jovens traduz genuíno crime contra a humanidade. Em matemática, Pindorama ocupa a 65ª posição do atual ranking de 81 países pesquisados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Já não importa se alguém enxerga Paulo Freire como um educador genial ou como um macabro embaixador do marxismo cultural. Isso deixou de ser assunto descolado nas rodas de chope. Evoluímos! O futuro (quer dizer, esse presente que se alonga, que se prolonga, que se renova em mais do mesmo e impede o futuro de chegar) da educação pindoramense se concentra em validar a linguagem neutra nas escolas. As legiões de analfabetos funcionais são problema secundário. A revolucionária empatia que nascerá da linguagem neutra será nossa panaceia para o analfabetismo funcional. Sepultemos de uma vez a pretensão de desenvolver nos estudantes a paixão pelo processo lógico e pelo pleno domínio da linguagem escrita e falada. Afinal, há espaço para todos das gerações presente e futuras se realizarem profissionalmente com dancinhas originais nas redes sociais. E tenho uma preocupação – de louco: será que os militantes da linguagem neutra estão atentos para um vocabulário amplamente inclusivo? É urgente que se defina pronome de tratamento para os therians – pessoas que se sentem animais e exigem respeito. Só não entendo porque therians, autodeclarados não humanos, quando adoecem, demonstram infundado preconceito contra veterinários e insistem em se consultar com urologistas e ginecologistas, o que os priva de uma experiência de vida mais imersiva. É preciso também que o novo vocabulário contemple os transbotânicos – pessoas autoproclamadas plantas que, segundo a declaração de uma delas, só querem “paz para fazer fotossíntese”. E os starseeds – pessoas, ops, alienígenas que, num exercício de humildade cósmica, vieram de outros planetas, dimensões, dinastias de universos paralelos para conduzir a raça humana a dias melhores – que precisam ter assegurados seus direitos na condição de análogos a seres humanos. Therians, transbotânicos e starseeds dão interessantes entrevistas em podcasts. Mas, maluco que sou, por mais que me empenhe, não consigo levá-los a sério. Ironia eu, louco incurável, acreditar que precisam de ajuda psiquiátrica. Caro leitor, não reconheço mais parâmetros de normalidade em nosso mundo – daí a dificuldade em compreendê-lo. Eis a natureza de minha insanidade: a incompreensão do que é normal. *Coronel da PM, advogado e escritor