(Fonte: Pixabay) Muitas são as imagens gravadas ao longo da história da humanidade trazendo santos, sábios, artistas e grandes escritores em gestos de prazer, responsabilidade e de poder, derivados da leitura. É São Domingos, absorto na leitura de um livro, enquanto descansa nos degraus de um templo. É o Menino Jesus lendo para os anciãos. É o poeta Virgílio, de turbante e barba, virando as páginas de um volume. É o escritor Jorge Luis Borges, quando já cego, de olhos fechados para melhor escutar o que estava sendo lido para ele. Neste 29 de outubro, quando se comemora o Dia Nacional do Livro, a importância da leitura ganha uma relevância que merece e precisa ser considerada, em seus diversos aspectos. “Ler para viver”, já dizia Flaubert, atribuindo à leitura uma função essencial ao ser humano. O homem precisa ser provocado, questionado por diálogos de conteúdo rico e muitas vezes desconhecido, vivenciar personagens de culturas diferentes e se abrir para novas ideias, para um mundo inusitado, quase sempre sem limites. Só então poderá vislumbrar mudanças no seu cotidiano e na vida da sociedade que o cerca. A mente entorpecida por ideias repetitivas, crenças não reelaboradas, preconceitos insistentes, e pobre em conhecimento do mundo estará sempre sujeita a dominações, a insatisfações e desesperançada. Não abre espaço para o sonho, a imaginação, a criação. Já a palavra, uma vez que penetre na intimidade do leitor, leva-o a agir diferente e o conduz a lugares que só ele é capaz de eleger. Vale lembrar que a ditadura de Pinochet baniu Dom Quixote por ver na obra um incentivo à liberdade individual e ataques ao governo. Vargas Llosa foi categórico, em uma de suas entrevistas: “Nada nos protege melhor da estupidez, do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que a grande literatura”. E complementou a fala lembrando que é por meio dos bons romances que aprendemos a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano, sua multifacetada criatividade. “A leitura é a mais civilizada das paixões”, observa também Alberto Manguel, em seu livro Uma História da Leitura. Nessa publicação, o autor narra casos curiosos de amor pelos livros e pela leitura, que atravessaram séculos. Entre eles, destaca o de um grão-vizir da Pérsia, que ciumento da biblioteca que possuía, carregava-a quando viajava. Fazia isso acomodando-a em quatrocentos camelos treinados para andar em ordem alfabética. Em outro caso, o autor se reporta a 1536, informando que uma lista de preços das prostitutas de Veneza anunciava uma profissional que se declarava amante da poesia e tinha sempre à mão algum livrete de Petrarca, Virgílio ou Homero... Fato incontestável é que os livros nos ensinam, nos encantam e nos fazem compreender ou, pelo menos, entender um pouco mais o mundo no qual vivemos. Eles nos tiram da solidão e constroem pontes entre povos distintos, aproximando-nos e nos fazendo sentir menos estrangeiros quando pisamos em terras novas pela primeira vez. *Taís Curi. Escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos