(Márcia Folleto/Agência Brasil) Embora o Brasil seja um dos países com maior carga horária de trabalho no mundo, a relação entre jornada prolongada e problemas de saúde é um paradoxo que exige uma análise mais profunda. Estudos nacionais e internacionais consistentes demonstram que a jornada excessiva está associada a um aumento do risco de doenças cardiovasculares, distúrbios do sono e problemas psicológicos. Essa realidade não apenas impacta a saúde dos trabalhadores, mas também gera custos elevados para as empresas, em decorrência de afastamentos, indenizações e perda de talentos. Além disso, a jornada excessiva contribui para a desigualdade de gênero, uma vez que as mulheres tendem a ter jornadas de trabalho mais longas e a realizar a maior parte do trabalho doméstico. Entre as 20 maiores economias, somente os indianos e os chineses têm uma carga de trabalho maior que a dos brasileiros. Já entre os italianos, franceses e alemães, dentre tantos, o quadro se inverte. Esses países também apresentam altos índices de desenvolvimento humano (IDH), maior qualidade de vida e produtividade econômica, em contrapartida, à nações emergentes, como o Brasil, que apresentam jornadas extensas, baixos salários e desigualdades sociais exacerbadas. É verdade que esse é um tema polêmico. Foi assim também quando o país instituiu o salário mínimo, determinou a carga máxima de trabalho em 8 horas diárias e obrigou o pagamento do 13º salário. Neste dia, o jornal O Globo estampava em sua capa: “Considerado desastroso para o País um 13º salário”. Mas a escala 6x1 é um bicho-papão menos feroz e o processo me parece irreversível, pois reflete o impacto direto de políticas que priorizam o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Trabalhadores submetidos à escala 6x1 estão mais propensos a desenvolver problemas como estresse crônico, síndrome de Burnout e doenças cardiovasculares. Reduzir a jornada traz benefícios evidentes: melhora na qualidade do sono, no equilíbrio hormonal e no estado emocional, resultando em trabalhadores mais saudáveis e produtivos. Estudos comprovam que jornadas mais curtas aumentam a concentração, reduzem erros e potencializam a criatividade. Experimentos em países como Islândia e Reino Unido, que implementaram semanas de quatro dias, mostraram que a produtividade se manteve ou até aumentou, ao mesmo tempo em que os trabalhadores relataram maior satisfação e bem-estar. Críticos da redução da jornada argumentam que isso prejudicaria empresas e reduziria salários. No entanto, essa perspectiva ignora a evidência de que a produtividade por hora trabalhada aumenta com jornadas equilibradas. Empresas não enfrentam prejuízos, já que custos fixos permanecem estáveis e trabalhadores saudáveis faltam menos e entregam resultados melhores. O temor de que salários seriam reduzidos proporcionalmente ao tempo de trabalho ignora que a eficiência aumenta, justificando a manutenção de salários atuais ou até aumentos. A reformulação da escala 6x1 é mais do que uma questão trabalhista; é um passo necessário para um Brasil mais justo e civilizado. Promover jornadas equilibradas beneficia não apenas trabalhadores, mas também empresas e a economia como um todo, criando uma sociedade mais saudável, produtiva e igualitária. O fim da escala 6x1 é uma luta que pertence a todos. Afinal, há vida além do trabalho. *Médico sanitarista e do trabalho