(Freepik) Era um voo de longa duração. Ouvi dizer se tratar do voo mais longo partindo de Pindorama. Viajava com a família e, a meu lado, estavam acomodadas duas senhoras aparentando pouco mais de 60 anos. Muito expansivas, conversavam entre elas e, nas oportunidades que surgiam, com as comissárias e passageiros. Falavam sempre num tom de voz acima do recomendado, especialmente quando pessoas ao redor pretendem dormir. Durante o serviço de bordo, uma delas “puxou” conversa comigo. Percebi que sua pretensão era apenas a de me relatar que costumava viajar bastante pelo mundo afora. Aviões, navios e hotéis compunham seu glamoroso cotidiano. Por civilidade, ouvi suas histórias (quase que) atentamente. No trajeto, ambas devem ter levantado e perambulado pela aeronave uma dúzia de vezes. Não que aquilo fosse da minha conta, mas, como éramos “vizinhos”, tornou-se impossível não notar. Pelas atitudes, eram (no linguajar dos mais velhos do que eu) duas senhoras “prafrentex”. Ao desembarcarmos, fomos cumprir o ritual de migração. No saguão do aeroporto, fomos ultrapassados pelas duas senhoras, ambas em cadeira de rodas. Improvável que, das centenas de passageiros, apenas aquelas extrovertidas senhoras tivessem passado mal com a comida servida a bordo ou sofrido com a inexistente turbulência. Aquilo cheirava à esperteza. Na manhã seguinte, nós as reencontramos no elevador do hotel. Não nos contivemos. Em razão da cena presenciada no aeroporto, perguntamos se estavam bem. Ouvimos que estavam ótimas e que a utilização da cadeira de rodas teve o propósito de evitar fila na migração. “Aprendi com minha filha que mora fora. Sempre faço isso. Usem também, é direito”, disse-nos uma delas com a convicção de quem nos dava um bom conselho. Confesso que não entendi o que ela quis dizer com “direito” (talvez, tenha se referido ao “sagrado direito” de levar vantagem sobre os outros). Nosso ordenamento jurídico recepciona o direito processual de mentir. Presumo que eu esteja desatualizado, e que já haja previsão também do direito de levar vantagem em detrimento do direito alheio. Há décadas, a propaganda de cigarros foi banida da televisão, mas a Lei de Gerson, tão veiculada numa delas, continua sendo ensinada, de geração em geração, por meio da “cultura verbal”. Trata-se de interessante tradição nacional. Em ocasiões assim, questiono-me se o maior problema de Pindorama não é justamente o pindoramense. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor