(FreePik) Descobri que etiquetas políticas não são universais. O que chamamos de esquerda e direita no Brasil pode ganhar significados bem diferentes em outros países. Basta olhar para os liberais: na origem, eram quase nômades ideológicos, circulando entre esquerda e direita, mas sempre próximos do centro. A defesa era clara — liberdade acima de tudo, desde que não invadisse a liberdade alheia. Resultado: verdadeiros liberais não se sentiam bem nos extremos. No Brasil, entretanto, o rótulo acabou colado na direita, como se “liberal” fosse primo-irmão de “conservador”. Nos Estados Unidos, curiosamente, o mesmo termo estacionou na ala progressista, mais perto da esquerda. Moral da história: quando o assunto é política, até o dicionário discorda. Eu, moderado convicto, confesso que tento compreender quem arma acampamento nos extremos. Há quem jure que convicções sólidas são a única rota para curar os males do país. Discordo. Se extremismos fossem a solução, já estaríamos competindo pelo pódio dos países desenvolvidos e não tropeçando na largada. No fundo, todos desejam a mesma coisa: um Brasil melhor. O tempero é que varia. A esquerda aposta num Estado robusto, capaz de intervir e redistribuir renda. A direita brasileira, por sua vez, prefere um Estado magro, que se limite a não atrapalhar, deixando o peso da vida nas costas do indivíduo. E nós, moderados? Ficamos no canto do salão, sem crachá, sem bandeira, mas com a mesma ambição de ver o país dar certo. Acreditamos que uma boa solução talvez esteja justamente em misturar ingredientes de ambos os lados, sem se render a narrativas prontas ou verdades absolutas que só engordam a polarização. Aos moderados, frases idolatradas por cada um dos lados soam como música desafinada: “Não entendo como alguém que enxerga o país pode não ser de esquerda!” ou “Não entendo como alguém que vê tanta corrupção não pede logo uma intervenção militar!” Pois é! Para nós não fazem sentido — mas seguimos. E há um ponto do qual não abrimos mão: populistas não nos levarão ao paraíso. Da esquerda à direita, esses personagens já provaram habilidade em criar narrativas impactantes, enriquecer às custas do Estado e distribuí-lo entre aliados. Se eles fossem a resposta, o Brasil já teria medalha de ouro no ranking do desenvolvimento. Por enquanto, seguimos apenas como bons torcedores — e, cá entre nós, ainda estamos só no aquecimento, longe de disputar a final no Maracanã. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor