Imagem e foto ilustrativa (Pixabay Roberto Jayme/TSE) A Cultura, como tema eleitoral, é tão intangível quanto saneamento básico. Toda gente sabe da sua importância, mas ele é difuso, intangível demais para um povo secularmente desassistido do básico. Tomam arte, patrimônio histórico e tradições como abordagem exótica de poetas para com a vida prática. Interessante que a burguesia brasileira vai ao Velho Mundo deslumbrar-se com arte, museus, exposições e história, mas aqui quase negligencia esse conjunto. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Foi a arte um lenitivo para os dias de desespero na pandemia. Do que é composta uma cidade sem interação espiritual senão dormitório e cenário de passagem? Nunca esqueço comentário sábio de um raro político culto, José Serra, dizendo que das tantas realizações do inesquecível governador Mário Covas, o que o eternizaria seria a Sala São Paulo, aquela linda revitalização da Luz e o resgate de nossa Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Os viadutos se banalizam, mas o que marca é o que rende frutos por gerações de artistas e fruidores da cultura, do húmus da raça. Mas não é só arte no sentido formal: são as lendas de uma comunidade, seu folclore, a oralidade e seus relatos, os saberes e sabores ancestrais, toda argamassa que compõe o intrincado edifício a partir de onde se diz: assim é meu povo! Assim sinto e sei-me deste rincão! Os debates nem resvalam em Cultura, o que representa uma pena. Acompanhei atento uma série preciosa rastreando três dezenas de municípios do Vale do Ribeira e Baixada Santista cobertos pela TV Tribuna, com a sempre competente ancoragem de Rodrigo Nardelli. “Retratos da Região” nos brindou com levantamento, município por município, de aspectos materiais e econômicos sem descurar do anímico que os recheiam. Ficou nítido o quanto atividades culturais fazem falta à população sequiosa de lazer com espírito. A ausência de políticas públicas para cultura se revela impactante até nos altos índices de alcoolismo de povoamentos esquecidos, desde um simples anfiteatro ou grupo de canto coral. O gestor não faz Cultura, ele proporciona que sua aldeia viceje no que tem de lastro e pode propiciar de saber para o porvir. Cultura não se tutela: ela deve se iluminar com meios que a viabilizem. Em qualquer país civilizado, é no poeta ou artista destacado que o governante reconhece expressão viva da criação e memória da terra. Isso desde Atenas de Pericles, Florença dos Medici até a França de Andre Malraux. Por mecenato ou políticas publicas, artistas carecem de incentivo da mesma forma que a Arte insere e salva tanto quanto Educação. E pensar que ao lado, no cultivado Uruguai, o livro faz parte da cesta básica. Enquanto aqui, quanta falta em muitas localidades um teatro e biblioteca não fazem. Promover Cultura em todos debates seria de grande valia para um Brasil menos idiotizado pelo consumismo e a superdigitalidade sem nenhum sentido além da compulsão pelo vazio.