(Alexsander Ferraz/AT) Havia um poeta no meio do caminho. No meio do caminho, havia um poeta. Não, não estou me referindo ao querido poeta, contista e cronista brasileiro Carlos Drummond de Andrade, um quilate precioso das Minas Gerais, mas não resisti parafraseá-lo para contar um “causo” envolvendo um outro poeta mineiro, Ricardo Avelino, esse, de Coronel Fabriciano, e santista de coração. Simpático, de jeitão tranquilo, logo no primeiro encontro foi me contando que era poeta e que havia reunido algumas dezenas de poesias ao longo de 10 anos, num caderno – sim, leitor, você não leu errado, estive com este caderno em mãos, modelo espiral, folhas pautadas, poesias copiadas a mão livre, ilustradas com flores, corações, estrelas... um clássico dos bancos escolares de décadas passadas. Penso que ele sentiu cheiro de jornalista no ar e eu mordi a isca. De posse desse caderno, ciente do conteúdo e impulsionada pelo instinto do jornalismo investigativo quis conhecer mais sobre minha “descoberta”: quem era, quais eram seus sonhos, planos para o futuro, como chegou até aqui com (e apesar) da sua cadeira de rodas. Agora que dei a dica de ouro, o autor de Coração de um Poeta, seu primeiro livro lançado de forma independente em dezembro de 2023, é uma pessoa com deficiência (PcD). Tem 48 anos e desde os 2 anos de idade tem uma relação inseparável com sua cadeira de rodas, após ter sido acometido por uma encefalite viral, que o deixou com sequelas graves por todo corpo, mas poupou sua inteligência, sua capacidade cognitiva, mantendo-o conectado com o mundo e com seus sonhos. Não demorou para sua vida e seu rosto estamparem reportagens de página inteira de A Tribuna, em 26 de novembro de 2023, do portal g1 e tantas outras entrevistas a canais de podcast e programas de rádio.O sonho do Ricardo era ser reconhecido como um escritor. A venda de seus livros o levou a materializar um segundo sonho: o de ter uma cadeira de rodas motorizada com controle pelo queixo. O próximo degrau é levá-lo ao patamar de palestrante. Ricardo Avelino nunca enxergou seus limites físicos. Ele é, literalmente, do tamanho da sua fé e dos seus sonhos. Histórias de superação como a dele nos levam a refletir sobre um tema tão necessário e urgente na sociedade: a verdadeira inclusão social de pessoas com deficiência. Atribuímos valores negativos à deficiência e precisamos ser confrontados nos nossos preconceitos e com a falta de informação. Sigamos, nos próximos artigos, desvendando o coração de um poeta. *Jornalista e gestora de projetos sociais