(FreePik) O governo está elaborando um projeto que visa proibir o uso de celulares nas escolas do país. A medida está em consonância com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que sugere, em um dos seus documentos, o banimento da telefonia móvel nos ambientes de ensino. De fato, parece existir um consenso global de que é preciso combater a hiperconectividade e criar algum tipo de regra, que busque, ao menos, estabelecer horários e locais específicos em que o aparelho celular possa ser utilizado. No entanto, será possível reduzir a exposição das novas gerações às telas por decreto? A restrição dos smartphones no ambiente escolar já é realidade em alguns lugares. Segundo a pesquisa TIC Educação 2023, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em 64% das escolas de ensinos Fundamental e Médio no País, os alunos podem utilizar o telefone celular apenas em determinados espaços e horários; enquanto 28% das instituições educacionais não permitem o uso do dispositivo pelos estudantes. Nas instituições que atendem alunos mais novos, até os anos iniciais do Ensino Fundamental, a proporção de escolas que proíbem a utilização do dispositivo passou de 32% em 2020, para 43% em 2023. A onipresença do celular no dia a dia favorece a hiperconexão, em que uma imensa quantidade de informação estimula o aparelho psíquico de crianças e adolescentes, sem a devida resistência imunológica, ou seja, a capacidade de processamento dos alunos é infinitamente menor à avalanche de dados à disposição. O psicólogo social Jonathan Haidt, no livro A Geração Ansiosa, explica que a “infância digitalizada” produz 4 efeitos: privação social, falta de sono, fragmentação da atenção e dependência. O escritor chama a atenção para os riscos desse fenômeno ao mencionar um estudo da American College Health Association, que mostra aumentos de 134% e 106%, respectivamente, nas taxas de ansiedade e depressão nessa faixa etária nos EUA de 2010 a 2019. Para o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro A Fábrica de Cretinos Digitais, 30 minutos por dia na frente de uma tela são suficientes para afetar o desenvolvimento intelectual da criança. O debate sobre os riscos do uso do celular em sala de aula exige uma compreensão crítica sobre o imperativo da conectividade. Não devemos adotar nem uma perspectiva de demonização das tecnologias, tão pouco reproduzir o discurso redentor das plataformas. É necessário pensar em uma educação pós-digital, desconectada de aplicativos, que estimule o desenvolvimento da expressão, da criatividade e do senso de identidade. Por outro lado, não podemos subestimar a capacidade dos estudantes de lidar criticamente com os novos dispositivos comunicacionais. A restrição do smartphone nas escolas precisa ser implantada gradualmente e com muito diálogo. Do contrário, a medida pode ser vista apenas como uma medida autoritária daqueles que pararam no tempo. *Michel Carvalho. Doutor em Ciências Humanas e Sociais e pesquisador do Grupo Mediações Educomunicativas