(FreePik) Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz, Tolstói e Victor Hugo são exemplos de gênios da literatura que possuíam rara habilidade para descrever ambientes. Sei que coloquei o sarrafo em um patamar muito alto, o que não me impede de reconhecer ser desprovido de qualquer destreza para descrever lugares, coisas, cheiros e sons. Se me aventurasse, seria um escritor de romance lido apenas por amigos próximos. Então fico com as crônicas, nas quais procuro traduzir o desejo – talvez, sem motivos para acreditar que venha a se tornar realidade – de um País melhor. Mas o mero exercício intelectual em busca de soluções para o País vem sendo sufocado. Agora, há graves limites para o pensamento. Algumas palavras não podem ser pronunciadas (lembro aqui do caso envolvendo o verbo denegrir) e, outras, uma vez suprimidas, passaram a denotar desrespeito pelos destinatários (quem concluiu que mulheres se sentiam desprestigiadas quando alguém, diante de plateia, dizia “bom dia a todos”, sem completar com “e a todas”?). Na Antiguidade, mensageiros eram mortos quando o destinatário franzia a testa e desaprovava a mensagem recebida. Evoluímos – já não somos mais bárbaros (?) –, mas nem tanto, não o suficiente. Já não decapitamos ou empalamos o mensageiro, mas passamos a contextualizar a mensagem de acordo com quem ele é. Diante do mensageiro, a notícia pode ser considerada verdadeira ou falsa, engraçada ou repulsiva. Quem decidiu que somente pessoas gordas podem fazer piadas sobre excesso de peso? Que apenas negros podem rechaçar falas que os considerem hipossuficientes? Que só mulheres podem mostrar indignação quando uma delas consome álcool em quantidade superior ao que é consumido por homens e chama isso de empoderamento? Que exclusivamente gays podem criticar quando algum deles se vitimiza para chamar atenção? Perguntas jamais devem ofender: então, que nicho de assuntos restou legitimamente reservado ao homem branco heterossexual? Há uma luta em curso, sem armas de fogo, muito mais devastadora. Nessa batalha, somos submetidos à espécie de castração química para amansar o pensamento, com a redução do vocabulário, a ressignificação de palavras e, sobretudo, a autorização para debater apenas temas que nossos traços genéticos permitam. Chegará o dia em que somente botos-cor-de-rosa, peixes-boi, araras-vermelhas e anacondas poderão debater sobre preservação ambiental? *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor