<p class="p-smartimagebox"><img attr-cid="policy:1.191063" attr-version="policy:1.191063:1767923172" class="p-smartimage" src="/image/policy:1.191063/legacy_image_78308.jpg?f=3x2&w=400&q=0.3" /><br /> <span class="p-smartcaption">( Adobe Stock )</span></p> <p data-end="388" data-start="150">Viver em sociedade é ter respeito e consciência, educação para aceitar diferenças e regras para manter harmonia. O que não incomoda você pode afetar alguém, e por isso a empatia é essencial para compartilhar o mesmo espaço de forma justa.</p> <p data-end="821" data-start="390">Às vezes, uma perturbação é o empurrão para mudar o rumo da vida. Foi assim com uma amiga. Feriados prolongados, para descansar, viraram sinfonia de vozes desafinadas, copos se chocando, risadas parecidas com gritos estridentes e discussões encerradas com portas batendo. Os moradores ao lado. No começo, ela reclamava. Depois, percebeu não valer a pena lutar contra aquele alvoroço. Então, certo dia, fez das malas sua trincheira.</p> <p data-end="1843" data-start="823">Cada data livre tornou-se oportunidade de escapar, de conhecer cidades novas, perder-se em trajetos e encontrar lindas paisagens. Com o tempo, viajar deixou de ser apenas fuga. Virou ritual. Cada descanso era planejado com antecedência, como quem prepara uma celebração íntima consigo mesma. Mapas riscados, passagens compradas, pequenos hotéis descobertos em vilarejos que mal apareciam nos guias turísticos. Colecionava memórias. O aroma de café em uma praça interiorana, a quietude de uma estrada cercada de árvores, o riso inesperado de desconhecidos tornando-se companheiros de jornada. Em uma cidadezinha de Minas, aprendeu como o silêncio das montanhas pode ser mais eloquente que qualquer algazarra. No Litoral, descobriu o som das ondas, capaz de apagar lembranças desagradáveis. Numa praça medieval europeia, ouvindo uma orquestra, música celestial, elevação aos céus. Curioso é, ao voltar para casa já não se incomodar tanto com o tumulto da família vizinha. O tormento de outrora, agora era apenas contraste.</p> <p data-end="2085" data-start="1845">Nem todo ruído é inimigo. Muitas vezes, a desordem externa é apenas sinal de que estamos prontos para mudar. O ser humano se acomoda facilmente ao estável, mesmo quando não é bom, mas a perturbação nos empurra para fora da zona de conforto.</p> <p data-end="2520" data-start="2087">Essa percepção abre caminho para uma reflexão maior. Poetas como Adélia Prado já haviam traduzido em versos. Em Bagagem, ela escreve: “O barulho da vida me ensurdece, mas é nele que encontro Deus. Nosso mundo, interior, não se divide entre paz e tormento, mas entre acolhimento e permissão. Aprender a escutar os outros e a si mesmo. A quietude não é somente estado angelical; o ruído também pode ser oração, e o desconforto, graça”.</p> <p data-end="2904" data-start="2522">Assim ela entendeu. Às vezes, o que nos parece castigo é apenas convite disfarçado. O tumulto a ensinou a escutar a própria calma. A perturbação virou impulso, e o impulso virou caminho. Hoje, quando alguém pergunta o motivo de suas viagens, ela sorri e responde: aprendi que o caos pode ser mestre. Ao ouvir novamente os baderneiros, recorda; desses episódios nasceu sua liberdade.</p> <p data-end="3081" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2906"><em data-end="3081" data-is-last-node="" data-start="2906">Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais, primeiro secretário da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios</em></p>