(@valentinaherszage) Ainda Estou Aqui não só catapultou a autoestima do brasileiro, mas também renovou, no cenário internacional, a memória sobre os desmandos ocorridos no Brasil no período da ditadura militar. Principalmente desde a indicação do longa brasileiro ao Oscar, a vida e a morte do deputado federal Rubens Paiva passaram a ser conhecidas por uns ou relembradas por outros. Os longas-metragens têm, para a vida moderna, a mesma importância que os mitos tinham para nossos antepassados, dando sentido a ela através do relato das sagas dos heróis e personificando arquétipos. O prêmio da Academia de Artes de Los Angeles escolhe as melhores dessas histórias e reconhece as pessoas que melhor personificaram nossos heróis e anti-heróis. Quando Rubens Paiva já não mais estava aqui, por providência dos militares, Eunice Paiva ainda estava e se fazia presente na vida dos filhos e na manutenção da memória do marido morto. Já Marcelo Rubens Paiva sofria a dor da perda do pai e aprendia como conviver com fantasmas que acabavam de se apresentar em sua vida. Marcelo trouxe a público os traumas da perda do pai desde Feliz Ano Velho e conta, em seus livros, os rastros de destruição que a morte violenta de um ente querido deixa nas gerações presentes e futuras. Marcelo é a geração presente de Rubens, mas não esconde que teve que filtrar os fatos, abordando-os com menos ódio, o que deve ter feito com que as ondas de impacto fossem recebidas com mais brandura por seu filho Joaquim. Hoje em dia, já se reconhece que existe um dano que acomete os filhos e netos não nascidos das vítimas diretas de atos de extrema violência: são os chamados danos transgeracionais. Os filhos das mulheres de Auschwitz, libertadas antes mesmo do parto, as crianças frutos de estupros, os descendentes de pais que foram crianças-soldados e voltaram para casa para acordar em sobressalto com o imaginário som de uma bomba, também são vítimas indiretas da violência, mesmo que ocorrida antes mesmo de seu nascimento. É possível que uma vítima dos danos transgeracionais esteja lendo este artigo, concordando que ter acompanhado a violência que vitimou um de seus pais enquanto ainda estava no ventre é uma circunstância que lhe cobra um alto preço psíquico até hoje. Enfim, num cenário onde Fernandas personificam Eunices, a violência personifica um eco que reverbera por gerações e gerações e que também ainda estão aqui. *Juiz de Direito e integrante da Unidade de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos do TJ-SP