Imagem Ilustrativa (Pixabay) O mito do herói grego Aquiles adentrou nosso imaginário e nossa nomenclatura médica: o tendão que se insere em nosso calcanhar foi chamado de tendão de Aquiles em homenagem a esse herói. O significado desse tendão... Bem, vamos contar a história toda. No final, você vai perceber que Aquiles está mais presente em nosso dia a dia do que deveria. Dizem que os terapeutas dão especial destaque às mães. No caso de Aquiles, o assunto mãe é de grande importância. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Aquiles era filho da mamãe, quer dizer, era filho de Tétis, uma divindade do mar. Dessa forma, Tétis era imortal. Diziam os oráculos que, se Tétis desposasse um deus do Olimpo, teria um filho mais poderoso que Zeus, o senhor dos Raios e o CEO dos deuses olímpicos. Zeus, que não queria fortalecer a concorrência, logo fez a belíssima Tétis se casar com Peleu, rei de uma região da Grécia. Eles tiveram um casamento legal, mas Peleu se queixava que a mulher se achava uma deusa e ela, no fundo, pensava que podia ter arrumado coisa melhor. Desse casamento, nasceu o belo e loiro Aquiles. Tétis ficou tomada pela beleza e perfeição de seu filho, mas sabia que ele era mortal. Ela nunca morreria, mas seu filho ficaria velho e morreria diante de seus olhos. Aqui a coisa pega: a hora em que alguém tenta tapear os deuses para se equiparar a eles. Tétis resolve banhar seu bebê nas águas do Estige, o rio que separava o mundo dos vivos do reino dos mortos. Para segurá-lo, ela pega em seus calcanhares, deixando a parte dos tendões fora do elixir da imortalidade. Aquiles se tornou como um deus, mas com um ponto fraco, humano e mortal, em seus calcanhares. Quando teve início a Guerra de Troia, os gregos receberam a previsão que só venceriam os temíveis troianos se Aquiles lutasse ao seu lado. A mãe tentou esconder o garoto, mas os gregos o acharam. Aquiles foi à guerra e causou estrago no exército troiano, mas acabou brigando com o chefe, Menelau. Quando foi punido, saiu da guerra e deixou os gregos sofrerem muitos revezes. Quando mataram seu primo e melhor amigo, resolveu voltar a lutar e matou um importante general inimigo, mas tomou uma flechada envenenada em seu ponto fraco. O que sua mãe mais temia, aconteceu, e assim morreu Aquiles. Nas Eliminatórias para a Copa de 94, o Brasil estava mal e corrida risco de não ir ao Mundial. Romário era nosso Aquiles baixinho, um jogador muito talentoso que poderia fazer a diferença, e, como Aquiles, brigou com a comissão técnica, sobretudo com Zagallo. Atendendo ao clamor, o técnico Parreira chamou Romário para o jogo decisivo contra o Uruguai. Romário chegou nos braços da torcida e acabou com o jogo. Foi o maior desempenho que ele teve com a camisa amarela. No ano seguinte, também levou o time nas costas naquela Copa vencida pelo Brasil. E qual foi seu calcanhar de Aquiles? A péssima relação com o grupo e os treinadores. Nas duas Copas seguintes, nas quais chegamos a duas finais, Romário foi excluído da convocação. Um documentário sobre ele, chamado O Cara (como ele se intitulava), glorifica esse grande talento que, ao se julgar mais que humano, foi flechado por seus inimigos. Recentemente, lembrei muito de Aquiles com o caso de um rapaz que, em alta velocidade, transformou seu carro caríssimo num míssil e bateu em um veículo de aplicativo, matando o trabalhador que lutava para colocar comida na mesa da família. O rapaz foi retirado do local por sua mãe, que não deve ser bela como Tétis, mas correu à cena do acidente. O contraste do carro de luxo, a direção imprudente, a tragédia e a tentativa de safar o rapaz das consequências gerou um clamor popular, até ser decreta a prisão preventiva do homem. Tétis tinha uma ferida narcísica de ter casado com um cara que julgava menos do que merecia. Tentou superar a sua inferioridade transformando seu filho em imortal, e o que aconteceu, na mitologia e na vida, foi que sentir-se um ungido esteve na base da tragédia, e da perda. Perdeu-se uma vida e a vida desse rapaz estará sempre marcada pelo ocorrido. Nessa época de endeusamento de pessoas, de transformação de crianças em estrelas da mídia e de famílias projetando suas frustrações e desejos nelas, é muito bom levar o livro de Mitologia debaixo do braço, para nos lembrar que, se você ignora sua humanidade, pode acabar com uma flecha envenenada no calcanhar.