(FreePik) Vivemos tempos de extremos. O espírito da nossa época parece marcado por trincheiras intransponíveis, onde o diálogo se dissolve diante da necessidade de reafirmar certezas. No Brasil, a convivência com a diferença – seja de opinião, costumes ou crenças – tornou-se um desafio. Redes sociais, que deveriam aproximar, amplificam bolhas e ressentimentos, transformando o debate em duelo. Essa dificuldade não é inédita, mas nossa era digital e acelerada parece torná-la mais crua. O que antes era um embate de ideias virou uma disputa pela anulação do outro. O paradoxo da tolerância, descrito por Karl Popper, nos alerta que, ao aceitarmos indiscriminadamente todas as ideias, corremos o risco de abrir espaço para aquelas que negam a própria tolerância. É um dilema real, pois o discurso extremista não busca o debate, mas a imposição. Quando a intolerância se alastra, a sociedade se vê refém de um jogo cruel: ou endurece suas regras para protegê-la, ou sucumbe àqueles que a corroem por dentro. E é exatamente esse dilema que se impõe diante de um dos temas mais sensíveis do Brasil atual: a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A tentativa de golpe, marcada pela invasão das sedes dos Três Poderes, não foi um episódio isolado de insatisfação política, mas a materialização de um projeto autoritário que, frustrado nas urnas, buscou se impor pela força. Investigações revelaram que os organizadores desses atos não apenas planejavam a ruptura institucional, mas cogitaram o assassinato de autoridades, incluindo o presidente Lula, o vice Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. A impunidade diante de tamanha afronta não seria um gesto de pacificação, mas um convite à reincidência. O Brasil já pagou caro no passado por concessões feitas em nome da estabilidade e não pode repetir o erro de tratar como divergência legítima aquilo que foi, em essência, um atentado contra a democracia. O Brasil já provou que sabe reagir a esses momentos críticos, mas a democracia não se sustenta apenas na resistência ao que a ameaça; ela exige compromisso diário com o fortalecimento das instituições, com o combate às desigualdades e com a defesa intransigente dos direitos. Se o zeitgeist atual nos desafia com a intolerância e a tentativa de normalização do autoritarismo, nossa resposta deve ser à altura: firme, serena e comprometida com um futuro onde a democracia não seja apenas um regime, mas um valor inegociável. *Thiago Andrade. Federação Brasil da Esperança