(Reprodução) O ex-deputado Rubens Paiva não oferecia nenhum risco à ditadura. Esse um ponto que acentua o tom “kafkiano” de sua condição de perseguido e martirizado. Rubens era um burguês progressista, tinha sido do velho PTB com tons nacionalistas e já estava fora de ação efetiva desde a cassação no golpe. O que ficou no imaginário dos ‘milicos’ do esquema de informação foi sua atuação numa CPI no período janguista sobre o IPES, instituto notabilizado por, à serviço da CIA, amealhar fundos imperialistas para eleição de reacionários e agitar esquema golpista que redundou em 1964. Coisas de Golbery-SNI. Ficou engasgado na mira dos radicais de farda. Já morando no Rio por interesses empresariais, perdera muito dos vínculos com sua Santos natal. Aqui, dos amigos diletos, Esmeraldo Tarquínio era o mais próximo. Prefeito eleito e cassado nos mesmos anos de chumbo que abateriam Rubens dramaticamente. Dois idealistas em tempos em que o conceito, em desuso, tinha significado: idealista! Rubens e seu círculo carioca citado no filme nada tinham de comunista: Gasparian e Bocaiuva Cunha. Estava por refazer-se. Seu pai, Jaime Paiva, fora prefeito duas vezes de Eldorado Paulista, um coronelzão conservador, proprietário da Fazenda Caraitá, onde a banana monopolizava a economia do então pobre Vale do Ribeira. O solar dos Paiva dominava sobranceiro a paisagem e a vida social da região, assim como o casarão de E o Vento Levou. Empregados dependentes, o comércio vivendo em torno de sua produção, agregados e colonos subservientes aos desmandos e ocasionais beneplácitos do Dr. Jaime. No entorno do latifúndio, um menino criado até os 18 anos nas herdades dos Paiva espreita o fausto: piscina só frequentada pelos netos de Jaime, campo de futebol para peladas dos camponeses, clube recreativo bancado pelo chefe. No seu imaginário, ser Paiva em Eldorado era pertencer a um Olimpo onde ele, filho de um prático em arrancar dentes fazendo as vezes de dentista improvisado, estava irremediavelmente excluído. Introjeta um ressentimento feito bomba de efeito retardado, ódio misturado a despeito que o torna amargo chauvinista contra todas as liberdades que o notório filho Rubens liberal representava contra seu pai, Jaime, despótico local. A Fazenda Caraitá, sem saber, representava o microcosmo de um país desigual que ecoaria na história que Walter Salles narraria décadas ainda tão polarizadas depois. O nome do jovenzinho saudoso da ditadura militar em Eldorado? Jair Bolsonaro. Formação reativa, dizem os psicanalistas. Recalque irremediável? Freud ainda tanto explica... *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos