Desde 1980 surgiam informações de uma síndrome imunodepressora radical na ordem inversa de nossa ofensiva por liberdade (Adobe Stock) Foi em 1984 que uma longa noite se abateu sobre o desejo e nosso amor tinha virado risco de vida. Não era um roteiro de Orwell, mas poderia ser de Camus com Foucault. Tudo começou lentamente nas baladas de São Francisco, em pleno desbunde de 68 e de Stonewall. Sentíamos libertos da opressão contra as mulheres e da segregação aos negros. O Studio 54 fervia com Truman Capote e Andy Warhol, que eram com Elton John e David Bowie os quatro rostos onipresentes dos anos 70. Foi nesse cenário efervescente com o homem na Lua e o ápice dos anticoncepcionais que cresci libertário de esquerda, num país sob carrancuda ditadura. Contudo, desde 1980 surgiam informações de uma síndrome imunodepressora radical na ordem inversa de nossa ofensiva por liberdade. Atingia em cheio homens gays, não por especificidade seletiva, mas por propensões etiológicas nos hábitos e não ira divina. A estupidez reacionária que não é de hoje não perdeu tempo: dizia-se do perigo dos beijos, de apertos de mão, propugnava-se isolamento dos homossexuais. Recordo de uma matéria da extinta revista Manchete usando título Câncer Gay. Enquanto ouvíamos Cazuza e Renato Russo no fim da ditadura, novas sombras se anunciavam abatendo corpos desviados dos padrões conservadores. O mundo era regido por férrea caretice da dupla Reagan-Thatcher. É nesse contexto que a aids ganha uma estampa emblemática: o arquétipo de beleza masculina Rock Hudson devastado pelo HIV. Era a pureza hipócrita que também ruía: a aids escancarava a necessidade de encarar todos os desejos sem preconceitos. No Brasil, uma cidade portuária cosmopolita foi porta de entrada. Santos, sob o governo de Telma de Souza, conduziu de maneira heroica uma luta contra o vírus através de ousada abordagem. Quando compartilhar o mesmo assento no ônibus aterrorizava, uma equipe multidisciplinar adentrou cortiços, antros, acolheu quem utilizava drogas e praticava sexo de risco, elevando nossa terra a exemplo de política sanitária pública a ser seguido. Mas foi aqui que o espírito desassombrado da Medicina na sua profundidade mais libertadora surgiu: um infectologista do Interior, santista de coração, alçou dimensão internacional. Fábio Mesquita, amigo, que está para a aids como Saturnino de Brito para o saneamento, consultor da ONU, rodou o planeta com uma prática que aqui aplicou num tempo em que se lutava ante um mal desconhecido. Quarenta anos depois, as trevas se dissiparam, mas a luta segue. Dedico este texto aos meus parceiros de artes e afetos que partiram sem alcançar a luz no fim do arco-íris sonhado. *Flávio Viegas Amoreira é ecritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande.