(FreePik) Desde a Antiguidade, filósofos, artistas e pensadores têm se debruçado sobre essa questão, buscando compreender onde reside a beleza e qual o seu significado em nossas vidas. Raso, portanto, o pensamento daqueles que ignoram o conceito multifacetado da beleza e aceitam o simples viés estético, deixando de considerar suas manifestações na natureza, nas artes, nas relações humanas. Isso sem contar a percepção decorrente dos contextos culturais e pessoais. No mundo natural, temos a harmonia das cores, a simetria das formas e a complexidade dos ecossistemas como exemplos de beleza. Pinturas, esculturas, músicas e danças são outras esferas onde a beleza é celebrada. E como não encontrar beleza também no amor, na amizade, na solidariedade? A perspectiva pessoal, o contexto cultural e os valores sociais contam muito quando se trata da percepção da beleza. As experiências de vida moldam a visão de mundo do indivíduo e acabam influenciando sua concepção do belo. Aquele que nasce e vive em uma metrópole, por exemplo, pode valorizar mais a estética urbana, enquanto o que permanece em um ambiente natural talvez encontre maior beleza em cenas do campo, em rios, montanhas. Os padrões estéticos variam, igualmente, em diferentes sociedades e ao longo do tempo. Em determinadas culturas e épocas, a beleza está associada à magreza; em outras, a formas mais voluptuosas. Tradições artísticas, literárias ou novas concepções que surgem — desafiando as anteriores — são outros fatores que moldam a apreciação estética. Ao longo das diferentes fases da vida, a percepção da beleza também se modifica. Na infância, a beleza é percebida de forma pura, espontânea. Uma pequena flor, uma borboleta, são fontes de grande admiração. Na adolescência, quando os jovens começam a se comparar com os amigos, a absorver os padrões enaltecidos pelas redes sociais, a valorizar características físicas, a concepção de beleza começa a se tornar mais complexa. Na fase adulta, é comum a redefinição do conceito de beleza, com uma compreensão mais profunda e abrangente do que é belo. Costuma haver uma valorização das qualidades internas, e a beleza torna-se uma combinação de aparência externa e valores pessoais. Já na velhice, a beleza assume uma nova dimensão, com muitos idosos passando a uma aceitação maior de si mesmos e dos outros. Chegam, inclusive, a perceber beleza nas marcas do tempo em fisionomias e corpos, reconhecendo-as como símbolos de experiências vividas. Imprescindível, ainda, trazer para essa reflexão o conceito transcendente de beleza, que a relaciona com a ideia de uma manifestação do divino, refletindo a harmonia e a ordem do universo. Para filósofos como Platão e Tomás de Aquino, a beleza é uma qualidade que liga o ser humano ao bem e à verdade, funcionando como um "esplendor" do que é verdadeiro e bom. São Francisco, um poeta e esteta de excepcional qualidade, via “no belo das criaturas, o Belíssimo”. Já o teólogo Leonardo Boff entende que “todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular... Algo articulado de forma equilibrada e harmônica.” Por fim, lembremo-nos de Dostoiévski, grande apreciador da beleza, ainda que seus romances penetrassem nas zonas mais obscuras e até perversas da alma humana. A beleza era tão central em sua vida, que ao menos uma vez no ano ele se deslocava até Dresden, na Alemanha, somente para contemplar a formosura da Madona Sistina, de Rafael. Em um de seus principais romances, Dostoiévski chega mesmo a sugerir que a experiência estética e a apreciação da beleza são fundamentais para a realização humana e a superação da mediocridade: “A beleza salvará o mundo”, diz a frase presente no livro O Idiota. Afinal, onde está a beleza? *Escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos