(( Divulgação)) Moro num edifício alto. Na varanda do apartamento, plantas conversam com as palmeiras e o cipreste do lado de fora. Borrifo água nas flores, folhas e na terra. Sinto a vastidão dos rios e das montanhas. O jardim ocidental é assimétrico, simbolizando melhor a multiplicidade e a amplidão. O chá da tarde traz o sabor de outrora, gentilmente respeitoso e quieto. Assim era na casa onde vivi. O acolhimento em volta da mesa: mãe, irmãos, tia, vizinhos e quem mais batesse à porta. Ao erguer a chawan (tigela do chá), a guirlanda pintada entre a parede e o teto parecia nos espiar, tornando único e eterno o encontro. No fim do inverno, especialmente, a renovação e a esperança marcavam o início do novo ciclo, quando a mãe colocava à mesa o vaso lascado com a rosa perene vermelha colhida no quintal. Uma só, ainda em botão, entreabrindo-se lentamente naquelas tardes ingênuas. Tardes em que a beleza pura acontecia. Mudamos para a nova casa... A vizinha nos deu as boas-vindas, colhendo a camélia em botão que, rodeada de folhas resistentes, despontava no seu canteiro. E no centro da mesa iluminou a cerimônia do chá, na mais pura das cores, branco imaculado, vivificado aos cuidados da tia-avó umedecendo o botão e o vaso, mantendo o conjunto orvalhado, como se a flor não tivesse sido colhida e ainda permanecesse lá fora. Não tínhamos a louça de Iga, mas na primeira casa onde vivi, a japonesa vizinha umedecia a vaso oriental e o brilho do esmalte da superfície resplandecia, numa das aberrações do forno durante a queimada. Anos depois, molhava levemente a tigela de chá, presente de casamento... E diante do nosso olhar repleto de gratidão, ela recuperava o próprio brilho. Durante a pandemia, isolados entre paredes, contaminação e doenças, o medo vingou. Um túnel escuro parecia sugar nossas forças, arrastando a esperança e a alegria para o inalcançável fundo. A aquarela aconteceu intuitivamente, quando me entreguei às cores e ao vazio, contemplando pela janela o espaço proibido. E me descobri por inteiro, aceitando, respeitando a natureza e agradecendo suas transformações. Quase sem perceber, compus dois vasos de folhas e flores secas, percebendo que guardam a iluminação proveniente delas. Desejo que meus olhos alcancem as ervas secas do campo... Já foram verdes um dia e agora deixarão sementes que irão florescer. A vida é provisória, mas retorna. A última aquarela do ano que passou tem duas cerejeiras. Ainda sem moldura, está na sala. Vejo o céu do entardecer entre os vãos dos galhos, das folhas, das flores brancas e dos gestos. No rosto, o toque do vento. Percebo a comunhão no silêncio das famílias sobre a relva. Tudo apenas é. Tudo acontece na hora certa, tempo ao qual nos entregamos com reverência. Em dezembro guardei pincéis e tintas. Vazio de ideias e compromissos, flanando feito um voyeur neste janeiro de 2025, entendo que assim me cumpro. É tempo de viver cada dia como se fosse o primeiro e o último. Como se fosse único. Treme o dente-de-leão nestas mãos de mais de 80 anos. O sopro espalha esporos. A vida continua. *Regina Alonso. Membro das academias Santista de Letras - Casa de Martins Fontes e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios