[[legacy_image_276822]] Um jardim pode ocupar uma área imensurável, mas até num pequeno vaso a beleza floresce. Em viagem a Campos do Jordão, perdi-me no Museu Felícia Leirner, instituição administrada pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa em parceria com a Associação Cultural de Apoio ao Museu Casa de Portinari, Organização Social de Cultura, com sede em Brodowski (SP). Ocupa aproximadamente 35 mil m² dentro de um fragmento da Mata Atlântica, importante bioma brasileiro, em São Paulo. A escultora polonesa Felícia Leirner escolheu Campos do Jordão para viver nos anos 1960. Aluna de Victor Brecheret, foi na Serra da Mantiqueira que ganhou um espaço amplo com seu nome para expor diversos de seus trabalhos, emoldurados pela beleza natural da região. Nascia assim, em 1978, o Museu Felícia Leirner — que, no ano seguinte, ganharia a companhia do Auditório Claudio Santoro, onde acontecem apresentações do tradicional Festival de Inverno de Campos do Jordão. Logo na entrada, a vida palpita na escultura da mãe acolhendo a criança. É inverno. Sopra o vento uivante por entre as esculturas. A primeira geada escorre, escrevendo pautas no granito. Crianças encarceradas em roupas sufocantes, mas aquecidas, rolam no declive do gramado. A coruja dorme no galho da árvore, enquanto a borboleta trêmula, em frágil voo, parece desfalecer num arbusto. Ao entardecer, o arrebol reflete por segundos a vermelhidão nas esculturas. Enrolada na manta, com luvas e gorro enterrado até as orelhas, piso folhas secas. Sento num banco e escuto o canto melancólico do pardal de inverno, que parece perguntar – Leirner, onde estás? Retorno a Santos, pensando na primavera. Restam muitos dias de inverno, mas pela janela do carro, no Emissário Submarino, adultos, idosos e crianças compartilham o espaço reformado. Sinto forte emoção, que vai aumentando diante dos jardins até a Ponta da Praia: não se vê nenhum mato. Tudo aparado... rente, brilhante. Ao sol, bicicletas novas e outras restauradas, à disposição do povo, com orientação para o uso correto e a devolução responsável. Diante da barraca de coco, passantes desfrutam a bebida saudável e os doces caseiros. Conversam sossegados, enquanto os pequenos brincam ao redor da Fonte do Sapo, sob os olhos vigilantes da Guarda Municipal de Santos. Tudo se harmoniza. As calçadas impecáveis, pois há lixeiras para descarte de reciclável e outras para dejetos de cães. Bancos para descansar, ler, bater papo, contemplando o mar encapelado e a variedade de espécies de plantas contornando os jardins. Que prazer admirar o voo das aves hibernais, que migram em busca de climas frios ou que permanecem aqui, onde construíram seus ninhos durante o outono. Em casa, as malas no chão. Preparo um café, degustado vagarosamente. A imagem da senhora, que morava num quarto da casa vizinha à nossa, ganha forma entre a fumaça. Sinto o cheiro dos grãos frescos moídos na hora. Ela nos chama pela janela. No beiral, seu jardim, pequeno e infinitamente belo, cabe num vaso. Cuidadas com esmero, flores e folhas viçosas.