(Arte) Era início dos anos 70, o País vivia sob o regime militar. No bairro das casas populares da Bacia do Macuco, pujavam as disputas pelas escolas de samba, centro nervoso do carnaval santista. A Diocese de Santos celebrava seu Jubileu de Ouro, a Igreja São Jorge estava em construção pela comunidade, eu era coroinha e participava disso tudo. O então professor cônego Paulo Horneaux de Moura foi designado para a assumir essa paróquia. Comumente, muitos desses adolescentes e jovens se reuniam na porta da Igreja, alguns não trabalhavam nem estudavam e outros de vez em quando conseguiam trabalhos de bagrinhos na estiva. Nos finais de semana, habitualmente os adolescentes e jovens pegavam emprestado os instrumentos da escola de samba X-9 e ficavam batucando na porta da igreja aos domingos, exatamente na hora da missa que era dedicada aos jovens. Padre Paulo tinha muita habilidade com os adolescentes, suas aulas de Educação Moral e Cívica eram prestigiadas pelos alunos. Além de professor da Escola Estadual Escolástica Rosa, cuidava do internato e não demorou muito para se aproximar dessa comunidade de jovens, refletir sobre a participação deles na comunidade e propor-lhes que batucassem em outro horário para poder participar da missa. Eles alegaram que só dispunham daquele horário, pois os instrumentos eram cedidos por empréstimo. Decididamente, negociou a aquisição desses instrumentos e como contrapartida a participação deles na missa e nas atividades da Paróquia. A partir daí foi recriado o Grêmio São Jorge, com o apoio de antigos integrantes. O padre conseguiu com o Poder Público a edificação da quadra de esporte, vários torneios da comunidade foram desenvolvidos e um grande número de moradores prestigiava os jogos. Foi criada uma quadrilha de festas juninas que ganhou vários concursos na Baixada Santista, chegando a dançar na televisão no programa da TV Tupi Clube dos Artistas, e era a grande atração das quermesses. Com aquisição dos instrumentos em 1972, decidimos participar do Banho da Doroteia, um concurso promovido pelo Clube Saldanha da Gama. A partir daí, o Grêmio São Jorge passou a se chamar Mocidade Independente do Padre Paulo. A agremiação participou de duas edições da Doroteia e a partir de 27 de agosto de 1974 passou a ser escola de samba. No fundo, o padre usou a estratégia de se utilizar de meios como o esporte e cultura na comunidade e por conseguinte, através da igreja, desenvolver atividades pastorais e sociais. Muitos desses jovens foram encaminhados a emprego pela influência do Padre Paulo. No convívio entres esses jovens nas atividades da comunidade, muitas famílias foram constituídas. Eu na época tinha 16 anos e era um dos líderes na comunidade. Esse protagonismo me propiciou no futuro dentro das Pastorais Sociais da Igreja, como adulto, a missão junto aos adolescentes. Seguindo o legado do Padre Paulo, passei a integrar a Pastoral do Menor da Diocese de Santos, que tem uma linda trajetória na mobilização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), junto com outras organizações da sociedade civil. Nesse ano jubilar da nossa Diocese, a escola de samba celebra também o seu Jubileu de Ouro. A data de 27 de agosto tem um significado grande em minha vida, pois além da Padre Paulo, aniversariam a Pastoral do Menor e minha netinha Catarina. *Edmir Santos Nascimento. Integrante da Pastoral do Menor, da Comissão de Erradicação do Trabalho Infantil e da Associação Leda Mascarenhas Queiroz