(Gerada por IA) Todas as vezes que o mundo se agiganta ao meu redor e a vida começa a se tornar muito mais intensa do que significativa, lembro-me de Manoel de Barros, o poeta mato-grossense, amante das miudezas. Nele, volto a perceber que a verdadeira riqueza da vida não está no grandioso, no espetacular, mas nas “insignificâncias”, nas belezas que o cotidiano insiste em nos oferecer e para as quais costumamos dar pouca atenção. “Andando devagar eu atraso o final do dia”, nos alerta o poeta em O Andarilho. Ansiosos para acompanhar a velocidade e a enormidade de acontecimentos pelos quais nos deixamos envolver, esquecemos de viver as pequenas coisas que nos serviriam de aprendizado. Atravessamos a manhã, a tarde e chegamos à noite estressados e, não raras vezes, desencantados e lamentando que mais um dia de nossa vida se foi, com uma rapidez alarmante. Quanto teríamos a aprender com os andarilhos, com os viajantes por terras distantes, que sentiam a beleza dos lugares por onde passavam... A filosofia também nos convida a um olhar mais atento, mais contemplativo e mais significativo para os detalhes que passam despercebidos em nossa experiência cotidiana. As pequenas coisas não são insignificantes, mas portadoras de sentidos profundos, de revelações sobre a nossa existência, de possibilidades de compreensão do mundo. Nietzsche, por exemplo, nos lembra que as pequenas coisas são o que temos de mais concreto, e que a capacidade de perceber e valorizar nuances, pormenores e sutilezas é um sinal de refinamento intelectual e sensibilidade artística. O existencialismo de Sartre vê nas pequenas escolhas e ações cotidianas a manifestação da liberdade humana. Cada decisão aparentemente insignificante revela nossa responsabilidade existencial e nossa capacidade de dar sentido à vida. A filosofia budista enfatiza a importância de estar presente nos pequenos momentos. Já o conceito de mindfulness valoriza a atenção plena aos detalhes mais simples da experiência, por considerar cada instante como oportunidade de consciência e transcendência. Outros conceitos apontam os pequenos rituais e momentos aparentemente banais, como um verdadeiro terreno da experiência humana e da transformação social. E o que pensar da simples ideia de que valorizar as pequenas coisas é também uma arte? Uma arte que requer prática. Uma prática que pode nos mostrar como as miudezas ao nosso redor estão plenas de beleza e significado. *Taís Curi. Jornalista e escritora, presidente da Academia Santista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos