(Matheus Tagé/AT) Nos últimos dias, a Câmara Municipal de Cubatão anunciou a alteração no nome do seu Plenário, atualmente denominado Dona Helena Meletti Cunha, para homenagear o falecido vereador Wilson Pio. A medida instaurou uma grande polêmica na cidade que merece uma reflexão cuidadosa. Embora o reconhecimento à memória do vereador, falecido em abril de 2023, seja justo e digno, precisamos questionar a necessidade de apagar da história uma figura feminina tão relevante como Dona Helena, especialmente em uma sociedade marcada pela falta de representação política das mulheres. Dona Helena Meletti Cunha, a primeira primeira-dama de Cubatão, deixou um legado inquestionável. Desde 1959, seu nome está à frente do Plenário como reconhecimento ao trabalho social pioneiro que desenvolveu. Numa época em que as instituições de apoio ainda eram escassas e o Fundo Municipal de Solidariedade sequer existia, ela se dedicou às causas sociais, ajudando os mais carentes com poucos recursos e muita determinação. Seu compromisso e generosidade fizeram de sua morte um momento de grande comoção na cidade. Trocar o nome do Plenário significa muito mais do que uma simples mudança de placa. Significa ignorar a contribuição histórica de uma mulher que, em uma época ainda mais desafiadora para a presença feminina na vida pública, sempre atuou com coragem e altruísmo. O ato se torna ainda mais preocupante quando não há, atualmente, nenhuma mulher eleita para a Câmara Municipal de Cubatão, evidenciando a falta de representação feminina no Legislativo municipal, reflexo do machismo estrutural que ainda impera em nossa classe política. Felizmente, após circular tais argumentos pelas redes sociais e diante da pressão da sociedade cubatense, a mesa diretora do Legislativo voltou atrás e anunciou a manutenção da homenagem a Dona Helena. Essa decisão, longe de desmerecer o legado do vereador Wilson Pio, que também merece reconhecimento, preserva a memória de uma mulher pública, pioneira na política local, e reforça a urgência de preservar a história de mulheres que abriram caminhos para que outras, como eu, possam almejar cargos políticos na cidade. A memória de Dona Helena simboliza o papel essencial das mulheres na construção de uma sociedade mais justa e solidária. Preservar seu nome é respeitar a história e lutar contra a invisibilidade feminina. Cubatão merece manter viva essa memória como um lembrete permanente do legado das mulheres cubatenses que construíram, com suas próprias mãos, a nossa cidade. *Procuradora municipal e ex-presidente do Conselho Municipal da Condição Feminina de Cubatão