Candidatos tem bens acima de R\$ 300 mil (Divulgação/PMS) Marcos Cunha foi meu colega nos tempos de Colégio Santista, nos anos 1960. Juntos cursamos o ginásio e o científico, e tínhamos certa proximidade. Discreto, quieto e reservado, era bom aluno e excelente declamador nas sessões do nosso Grêmio Literário. A vida e o destino nos separaram e nunca mais tive notícias dele. Lembro-me bem, porém, de sua casa. Era próxima da minha, localizada em prédio de três andares na esquina das ruas Benjamin Constant e Vergueiro Steidel, no Bairro Embaré. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Estive lá algumas vezes, provavelmente para estudar. O edifício resistiu ao tempo, e lá estava até a semana passada. Para minha surpresa, porém, ele desapareceu, como passe de mágica, em menos de 24 horas. Restaram escombros e entulhos, e um grande terreno se descortinou no local. Não é um fato isolado. Venho notando, pelo menos nas redondezas de onde moro (curiosamente voltei a residir na mesma rua da minha meninice, 50 anos depois), e de alguns bairros adjacentes, a demolição progressiva e incrivelmente rápida de casas e prédios que darão origem a novas construções, que acabarão por se tornar torres de algumas dezenas de andares. É sinal evidente da força do mercado imobiliário e das boas perspectivas do setor para os próximos anos. Novas obras, projetos sofisticados em ambientes modernos, serão logo erguidas. Empregos de todos os tipos serão gerados, uma vez que a cadeia da construção civil se estende a vários outros setores, da indústria ao comércio e serviços. Ao meu redor, o público será de classe média alta e alta, mas é preciso reconhecer que também empreendimentos destinados aos menos favorecidos têm sido lançados, consequência de planos de financiamento como o Minha Casa, Minha Vida. Não sou contrário às torres e aos edifícios altos. Sempre os defendi, entendendo que a ocupação dos terrenos acaba menor do que os antigos prédios, de três a nove andares, colados uns aos outros. E não sou nostálgico dos sobrados e bangalôs, que naturalmente vão desaparecendo em função do tamanho das famílias, das despesas de manutenção e da dificuldade em garantir segurança. Mas sinto a ausência de áreas verdes na cidade. Santos é um município de pequena extensão territorial (39 km² na área insular, onde vive praticamente toda sua população), com densidade populacional altíssima. Não há praticamente espaços ou terrenos vagos (os famosos “baldios”) e ao longo do tempo várias praças foram eliminadas, com a construção nos locais de escolas e outros equipamentos públicos. Temos a praia e seu magnífico jardim. Mas o interior da ilha, apesar de algumas ruas e bairros arborizados, e alguns recantos espremidos e raquíticos, é autêntica selva de pedra. Não seria a hora de começar a recuperar espaços para devolver horizonte, ar e verde aos santistas? Entre tantas demolições, vislumbro que uma parte poderia ser escolhida, de acordo com racional planejamento, para que lá não se construísse absolutamente nada. Há o potencial adicional construtivo, que permite construções além do limite, em áreas bem definidas, exigindo pagamento dos empreendedores que poderia ser utilizado para aquisição de terrenos. Em tempos de campanha eleitoral, que tal, senhores candidatos, incluir em seus programas essa proposta: mais verde, mais liberdade, mais espaço vazio na cidade?