<p class="p-smartimagebox"><img attr-cid="policy:1.506397" attr-version="policy:1.506397:1773874993" class="p-smartimage" src="/image/policy:1.506397/image.png?f=3x2&w=400&q=0.3" /><br /> <span class="p-smartcaption">(Freepik)</span></p> <p data-end="359" data-start="45">O presidente americano, Donald Trump, atirou no que viu e acertou no que não viu. Ou pelo menos, no que não queria ver de jeito nenhum: a guerra que está promovendo no Oriente Médio tem tudo para dar um novo ímpeto à transição energética global, num processo do qual o Brasil pode ser um dos poucos beneficiados.</p> <p data-end="752" data-start="361">As fortes oscilações dos preços do petróleo associadas ao conflito têm afetado os valores dos combustíveis em diversos países. Mesmo nos Estados Unidos, que hoje lideram a produção global de óleo, o valor da gasolina praticamente dobrou desde o primeiro ataque, no final de fevereiro. Ao mesmo tempo, as restrições ao transporte têm pressionado os custos do gás natural e de fertilizantes.</p> <p data-end="1024" data-start="754">Essas pressões econômicas e a nova dose de imprevisibilidade na geopolítica energética reforçam a reconfiguração global em curso desde que a pandemia e a guerra na Ucrânia colocaram a busca pela segurança no suprimento de itens estratégicos como prioridade dos países.</p> <p data-end="1244" data-start="1026">O reconhecimento da urgência da redução das emissões por muitas nações - apesar da visão dos EUA - também impulsiona esse quadro de reorganização, em que o petróleo caro pode estimular investimentos em energia limpa.</p> <p data-end="1649" data-start="1246">Para o Brasil, esse cenário não é novidade. As crises do petróleo dos anos 1970 pavimentaram a trajetória do país na consolidação de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Na época, o País valeu-se do etanol para reduzir a demanda por gasolina, ao mesmo tempo em que intensificou o aproveitamento do potencial hidráulico que hoje responde por mais da metade da eletricidade gerada no país.</p> <p data-end="2091" data-start="1651">Agora, temos a chance de dar novos passos: essa renovabilidade combinada a condições favoráveis em termos de infraestrutura, mão de obra e de matérias-primas, e um amplo potencial energético ainda a ser explorado coloca o país como destino estratégico para novos investimentos produtivos. A qualidade da diplomacia brasileira e a postura pacífica do país num mundo cada vez mais aprofundado em conflitos também somam pontos a nosso favor.</p> <p data-end="2372" data-start="2093">Evidentemente que o desprezo da atual gestão norte-americana pela pauta climática pode reduzir essa relevância. Mas nossas relações com países da Europa, Canadá, Índia e México mostram que ainda há muitas geografias interessadas na transição por meio de parcerias consistentes.</p> <p data-end="2679" data-start="2374">O fato é que, dadas as características do país, alocar investimentos produtivos por aqui representa uma alternativa para descarbonizar economias com a competitividade e a segurança necessárias. Ao mesmo tempo, esse movimento pode nos proporcionar uma espiral favorável de desenvolvimento socioeconômico.</p> <p data-end="3253" data-start="2681">Claro que seria muito melhor se pudéssemos usar nossos predicados positivos num cenário pacífico e em que a questão climática fosse uma preocupação da maioria dos países. Ainda assim, diante de um multilateralismo fragmentado, acordos bilaterais e plurilaterais podem ganhar relevância como instrumentos para avançar agendas concretas. É fundamental que esses arranjos sejam estruturados de forma coordenada para destravar acordos comerciais entre países com interesses convergentes, especialmente voltados ao comércio de produtos e insumos industriais de baixo carbono.</p> <p data-end="3907" data-start="3255">Isso implica ir além da oferta de energia limpa e organizar cadeias produtivas e fluxos comerciais que viabilizem a competitividade desses produtos no mercado internacional. Ao alinhar políticas industriais, comerciais e climáticas, o Brasil pode liderar a construção dessas pontes, destravando demanda global e criando escala para tecnologias e processos produtivos descarbonizados. Ao mesmo tempo, essa estratégia contribui para a formação de cadeias de suprimento mais diversificadas e resilientes, menos dependentes de parceiros instáveis ou de rotas logísticas únicas, reduzindo riscos geopolíticos e aumentando a segurança econômica dos países.</p> <p data-end="3907" data-start="3255">* Colaborou Stefania Relva, diretora de Transformação Industrial do Instituto E+ Transição Energética.</p>